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Você pode ouvir minhas lágrimas?

Akayama João

Eu não faço som com lágrima caindo do olho
Mas eu faço um som quando eu viro esse entulho em tijolo
O que eu engulo vira canto, vira choque, vira norte
Minha dor é um idioma que eu traduzo em acorde

Eu fui menino de chão frio, parede sem reboco
Apelido no lugar do nome, riso virando sufoco
Eu aprendi a me dobrar pra caber no desprezo
Pra não virar a piada, eu virei o meu peso

Eu vivi como vitrine, vivendo de parecer
Fui refém do vão dizer: Pra não me desfazer
Mas hoje eu vejo: O medo é um ladrão de identidade
Ele assina meu roteiro com tinta de vaidade

E se me olham, eu tremo (mas eu vou)
Se riem de mim, eu queimo (mas eu vou)
Não é falta de fé, é excesso de lembrança
Eu tô desaprendendo a ser criança na cobrança

Você pode ouvir minhas lágrimas?
(Virando música na madrugada)
Eu não sou vitrine, sou âncora
Sou ferida sendo cicatrizada

Você pode ouvir minhas lágrimas?
(Eu não preciso mais me explicar)
O que o mundo chama de queda
É Deus me ensinando a ficar

Não é medo do futuro, nem do bolso, nem da falta
É medo da boca alheia quando a alma se exalta
É o olho que mede a gente como se fosse preço
E eu carreguei esse cálculo grudado no meu pescoço

Mas eu vi que identidade não vem de multidão
Vem do lugar onde me olham sem pedir encenação
Tem um amor que não depende de eu vencer no placar
Tem um abraço que não exige eu me justificar

Se eu recomeço pequeno, eu não fico menor
Se eu ando sem aplauso, eu não viro pior
Eu renuncio a essa vida de vitrine e vitral
Eu quero ser carne e osso, não um quadro social

E se falarem de mim (tu és)
Meu defensor no fim (tu és)
Se me julgarem no canto (tu és)
Minha verdade no pranto

Você pode ouvir minhas lágrimas?
(Virando música na madrugada)
Eu não sou vitrine, sou âncora
Sou ferida sendo cicatrizada

Você pode ouvir minhas lágrimas?
(Eu não preciso mais me explicar)
O que o mundo chama de queda
É Deus me ensinando a ficar

Eu não corro pra provar, eu caminho pra viver
Eu não grito pra vencer, eu respiro pra entender
Tem silêncio que é coragem com voz de oração
Tem pausa que é músculo do coração

E o vão dizer: Que me prendia na palma da mão
Hoje vira vento batendo e perdendo a direção
Porque a minha identidade não mora na vitrine
Mora no olhar que me chama de filho e me define

E eu ajo, eu vivo, eu sigo (sem show)
Não pra provar, mas por abrigo (eu vou)
Se o medo gritar volta! Eu respondo não volto!
Minha alma não é contrato, é um céu aberto

Você pode ouvir minhas lágrimas?
(Virando música na madrugada)
Eu não sou vitrine, sou âncora
Sou ferida sendo cicatrizada

Você pode ouvir minhas lágrimas?
(Eu não preciso mais me explicar)
O que o mundo chama de queda
É Deus me ensinando a ficar

Eu não ouço lágrima como som
Mas eu reconheço, quando ela vira canção

Composição: Akayama João