Não há mais nome, só um número frio e cruel
Tatuado na pele, a alma em farrapos, nua
Falta humanidade, é vazia sem o brilho da luz
Deixados na plataforma, sob a fumaça crua
O trilho de ferro que trouxe a esperança
Devolveu apenas o medo e a fome
O último abraço, o fim da lembrança
Ninguém mais atende ao nosso nome
O cheiro de morte pairava no ar
Sob o portão de ferro: Arbeit Macht Frei
Oh, o silêncio que a neve cobriu
Seis milhões de vozes que o mundo calou
Uma estrela amarela que ninguém mais viu
Na fornalha acesa que a vida roubou
Crianças sem brinquedos, olhos de cristal
Que viram a face mais fria do mal
Ich bin allein
Pó sobre a terra, cinzas sobre o chão
No barracão cinza, a madeira geme
O frio da Polônia penetra os ossos
O pão é um sonho, o medo é um emblema
A cada amanhecer, restam poucos dos nossos
O som da bota no chão de cascalho
A voz de comando que rasga o amanhecer
O trabalho exaustivo, frio sem agasalho
A dignidade humana a desfalecer
A esperança é pequena, mas teima em brilhar
Numa prece sussurrada que o vento há de levar
E quando a fumaça cessou de subir
E a porta se abriu para a luz da razão
O mundo viu o que nunca quis ouvir
A prova final da nossa imperfeição
O que resta são sapatos, óculos, cabelos
Testemunhos mudos de um crime sem par
Não é uma história, não, são pesadelos
É uma ferida aberta que dói ao lembrar
Oh, o silêncio que a neve cobriu
Seis milhões de vozes que o mundo calou
Uma estrela amarela que ninguém mais viu
Na fornalha acesa que a vida roubou
Crianças sem brinquedos, olhos de cristal
Que viram a face mais fria do mal
O destino cruel se tornou o normal
Pó sobre a terra, cinzas sobre o chão
Nunca mais! É o grito que insiste
Gravado no mármore, gravado na dor
Para que a história de cinzas resista
E não se repita o ódio e o terror
Que a chama da vela jamais se apague
Pelas almas que o holocausto levou
E que o mundo, lembrando, jamais divague
Sobre a dor de quem ali expiou