No outono sombrio de Mil Trezentos e Quarenta
A Europa, cansada, sob a fome lenta
Pelos portos de Caffa, navios a chegar
Trazendo do Oriente um destino a ceifar
A pulga e o roedor, um pacto de horror
E a bactéria Yersinia que anuncia a dor
Chegou em Messina, primeiro a notar
Pelo ar, pelo toque, não dava para escapar
Da Ásia o flagelo, um veneno sem par
Em três dias, a febre, a pele a queimar
Nos gânglios, o inchaço, o bubão a nascer
Negro e cruel, a anunciar o morrer
As casas fechadas, a família a ruir
O medo é a sombra que nos faz desistir
Um terço da Europa, a terra a chorar
O ar é de luto, a morte em todo lugar
É a Peste Negra, o castigo de Deus
O fim da certeza, o adeus aos céus!
A Dança Macabra nos cemitérios a bailar
O clero, o nobre, o servo, todos a tombar
Não há fuga, não há cura, só o desespero cru
O século catorze se veste de azul
O Pároco e o Médico, tombados em vão
Nenhuma prece salva, não há explicação
A fé se abalou, o Poder da Igreja se vai
Se o Céu nos pune, a quem mais implorais?
O Flagelante desce, a pele a rasgar
Culpando o pecado, buscando o perdoar
Mas a culpa é do outro, o ódio a crescer
O judeu, o herege, o bode a sofrer
Um terço da Europa, a terra a chorar
O ar é de luto, a morte em todo lugar
É a Peste Negra, o castigo de Deus
O fim da certeza, o adeus aos céus!
A Dança Macabra nos cemitérios a bailar
O clero, o nobre, o servo, todos a tombar
Não há fuga, não há cura, só o desespero cru
O século catorze se veste de azul
A colheita murcha, não há braços pra colher
O Feudalismo cambaleia, já não pode viver
A terra sem dono, o trabalho é luxo raro
O valor do Servo renasce, tão caro
O salário sobe, o poder a mudar
Transformando a miséria para quem souber ficar
Nas cinzas da morte, um novo mundo a surgir
Pois a perda de tudo, nos ensina a resistir
A Peste Negra passou, a ferida ficou
Em cada beco escuro que o medo tocou
E a lembrança da Morte, com a face a sorrir
Sussurra a lição: Que o fim pode ser o Vir
A Peste Negra provavelmente se iniciou na
Ásia Central ou Oriental, por volta de meados do século XIV
E se espalhou para a Europa através das rotas comerciais
Chegando à Crimeia em 1343 e à Europa em 1346 ou 1347