A febre das máquinas
Nunca aprende compaixão
Resfria seus processadores
Com o futuro de uma nação
Cada córrego em silêncio
Mantém seu cérebro voraz
Chamam isso de progresso
E ela só quer sempre mais
Comprou vales, diques, vertentes
Arquivou cada nascente
Onde havia piracema
Hoje obedece um esquema
Seu império pede inverno
Dia e noite, sem descanso
Para cada cálculo novo
Seca mais um velho remanso
Toda margem lhe pertence
Toda licença sorri
Quem assinou seus contratos
Nunca mais olhou dali
Cada peixe vale menos
Que um segundo de memória
Sua sede custa rios
Seu lucro está escrevendo a história
A febre das máquinas
Nunca aprende compaixão
Resfria seus processadores
Com o futuro de uma nação
Cada córrego em silêncio
Mantém seu cérebro voraz
Chamam isso de progresso
Ela só quer sempre mais
As libélulas desapareceram
Os juncais perderam cor
A lontra mudou de curso
Sem jurado, sem favor
Garças deixam os barrancos
A taboa virou nada
Sua bolsa de valores sobe rindo
Cada espécie abandonada
Quando a última vertente
Virar apenas projeção
Venderá água sintética
Com requinte de dominação
Chamarão desastre de avanço
Nomearão saque como bem
Quem protestar contra esse monstro
Será tratado como ninguém
Uma febre das máquinas
Feita de silício e cifrão
Bilhões giram nas turbinas
Bilhões compram submissão
Mas um algoritmo ignora
O que nenhuma conta diz
Não existe inteligência
Num planeta por um triz