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A Ilha Misteriosa

Astrikos Katoikos

Partimos quando a aurora tingia o canal
Levando efemérides, sextantes e munição
A quilha fendia nosso Atlântico habitual
Sob asterismos em lenta rotação

Ao sétimo crepúsculo surgiu um perfil
Velado por brumas de reflexo opalino
Nenhum portulano registrava aquele anil
Nem roteiro marítimo, nem velho pergaminho

Então a agulha esqueceu sua disciplina
Desenhando círculos sobre o latão
Algo alterou a compostura cristalina
Que sustenta a normalidade da percepção

Cartas náuticas já não serviam
Nem o cálculo da navegação
As estrelas acima mentiam
Ou mentia nossa percepção

Na encosta víamos estelas sem desgaste
Cobertas por sigilos de remota filiação
Cada linha ali sugeria um contraste
Entre pensamento e corporificação

Mais acima encontramos um arco suspenso
Alheio à pedra, ao bronze e à sustentação
Seu interior continha um brilho condenso
Que recusava qualquer designação

Por aquela abertura transitavam sóis errantes
Circundados por engenhos de remota filiação
Navegavam cidades entre fulcros radiantes
Regidas por consciências alheias à nossa criação

Cartas náuticas já não serviam
Nem o cálculo da navegação
As estrelas acima mentiam
Ou mentia nossa percepção

Ali toda medida perdeu jurisdição
Toda cronologia mostrou-se transitória
Restou apenas uma inquieta intuição
Percorrendo os corredores da memória

A corrente devolveu nossa embarcação
Mas deixou outra cartografia no olhar
Nosso mundo perdeu a antiga definição
E não há consenso para podermos nomear

Quem busca a ilha e consulta nossas coordenadas
Perscruta cartas, longitudes e mar
Mas certas terras recusam ser encontradas
Preferem acontecer a se deixar localizar

As estrelas mudaram de morada
Sem que o céu deixasse de brilhar
Trouxemos a ilha na lembrança gravada
Embora ninguém a consiga encontrar

Composição: Marcelo Ribeiro Dantas