395px

Carcará, Bicho Sanguinolento

Astrikos Katoikos

No alto da caatinga, o carcará vigia
A asa corta o azul na secura do verão
Fareja a desventura quando rompe o dia
E ronda a baixada com fome de sertão

Tem bico de navalha, pupila de guerreiro
Conhece cada vereda, cada lajedo agreste
Disputa a carniça com urubu ligeiro
E enfrenta a ventania que castiga o nordeste

Carcará bicho sanguinolento
Olha do alto a presa a todo momento
E desce em fúria e atrevimento
Carcará segue qualquer movimento
Carcará

Carcará, carcará
Fera alada do sertão
Quando a fome vem rondando
Ninguém segura o gavião
Carcará, carcará
Não conhece compaixão
Onde a vida vale pouco
Vale muito a decisão

Se a chuva vem tardia e a pastagem definha
Ele procura a presa na aridez do espinheiro
Observa lá do alto a rês que se avizinha
Senhor daquelas léguas, predador certeiro

O Sol castiga a pedra, a mata perde o viço
O gado busca sombra no calor abrasador
Carcará conhece bem a lei desse serviço
Quem nasce entre os espinhos aprende seu rigor

Carcará, carcará
Fera alada do sertão
Quando a fome vem rondando
Ninguém segura o gavião
Carcará, carcará
Não conhece compaixão
Onde a vida vale pouco
Vale muito a decisão

Quando abre aquelas asas sobre a terra castigada
Parece que a caatinga levantou seu sentinela
A morte vem ligeira pela tarde incendiada
E o carcará retorna com a presa presa nela

Carcará!
Carcará!
Valentia de sertão!
Carcará!
Carcará!
Quem vacila vira refeição!

Carcará bicho sanguinolento
Olha do alto a presa a todo momento
E desce em fúria e atrevimento
Carcará segue qualquer movimento
Carcará

Carcará pega mata e come
É pior do que qualquer homem
No sertão é malvado igual cangaceiro
Não tem dó e ataca igual carniceiro
Carcará

Composição: Marcelo Ribeiro Dantas