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Chora Sertão

Astrikos Katoikos

Nasceu no pó da miséria, no dorso seco da fé
Um povo que via em Antônio o lume do que inda é
Cresceu da pedra o milagre, da fome o fio da mão
E o céu rachado olhava o fim da revolução

Chora, sertão, tua reza ferida
Tua alma perdida na cruz do chão
Belo Monte queimou com a vida
Mas o sonho ficou no teu coração

Marcharam mil fuzileiros contra a bênção da oração
A pólvora contra o rosário, a espada contra o perdão
Mulher de ventre vazio, homem de olhar de insolação
Caíram sem entender que Deus não vive em quartel nem canção

Chora, sertão, tua reza ferida
Tua alma perdida na cruz do chão
Belo Monte queimou com a vida
Mas o sonho ficou no teu coração

E o vento leva o lamento das vozes que não voltaram
Das velas que o tempo apagou, dos santos que profanaram
Mas cada ossada que resta chora o mesmo refrão
Que a fé não morre na bala, só muda de direção

Chora, sertão, mas canta ainda
Tua sina é ferida e é canção
Entre cinzas a esperança ainda finda
Mas renasce no pó: Sertão, sertão

Composição: Marcelo Ribeiro Dantas