Oh forças sombrias que sustentam
A encruza onde o além se faz
Oh sentinelas que se erguem
Quando o destino perde a paz
Senhor Tranca Ruas guia os portões
Senhor Caveira lê o que na terra jaz
E a calunga inteira canta
Num tom que o cosmos não desfaz
Na calunga o ar se condensa
Um frio velho tenta ascender
A lua observa em tom doente
Como quem sabe o que vai ver
Há forças densas que murmuram
Do fundo cíclico do sofrer
E o tempo se encurta na matéria
Pedindo ao rito pra responder
A bruma passa sobre as lápides
Parece rir do que morreu
Há vibrações que se insinuam
Como fantasmas que alguém escreveu
Capa Preta faria o verso pútrido
Ferrabrás diria que nasceu
No raio último da noite
Onde o impossível se corrompeu
Exu Caveira se aproxima
Com seu saber de decompor
Lê na ossatura dos extintos
O itinerário do pavor
No crânio o silício ainda vibra
Guardando restos de algum ardor
O que a ciência nunca explica
Ele decifra com rigor
Oh forças sombrias que sustentam
A encruza onde o além se faz
Oh sentinelas que se erguem
Quando o destino perde a paz
Senhor Tranca Ruas guia os portões
Senhor Caveira lê o que na terra jaz
E a calunga inteira canta
Num tom que o cosmos não desfaz
Nas esquinas da meia-noite
A hora desce sem cair
Há claridades que não iluminam
Apenas tentam dividir
Exus conclamam antigos pactos
Pra conduzir ou impedir
Quem pisa ali sente o chamado
Que nenhum sábio pode fingir
Um coro oculto se insinua
Na vibração do corpo aflito
São reminiscências ancestrais
Em seu retorno mais estrito
Senhor Marabô veria na hemoglobina
O códice vivo do infinito
Exu Veludo notaria o signo
De alguma força sem registro
No ritual o fogo gira
Sem usar formas que seduzam
A noite inteira se comprime
Pra ouvir os nomes que conduzam
Os guardiões firmados na senda
Vigiam tudo para que cruzem
Somente aqueles que entendem
O que os cemitérios traduzem
Oh forças sombrias que sustentam
A encruza onde o além se faz
Oh sentinelas que se erguem
Quando o destino perde a paz
Senhor Tranca Ruas guia os portões
Senhor Caveira lê o que na terra jaz
E a calunga inteira canta
Num tom que o cosmos não desfaz
O pai de santo ergue o charuto
Traçando círculos no ar
A fumaça cria geometrias
Que só a noite pode aceitar
Há uma ciência subterrânea
Que a alma humana não sabe dar
Mas senhor Caveira entende o código
Que a própria morte quer guardar
No cruzamento o pavio acende
Uma sentinela em seu lugar
Quem passa sente na espinha
Uma vontade de jamais parar
Sete Encruzilhadas falaria em tênues
Sombras prontas pra devorar
E Tranca Ruas sabe ao certo
Quem deve ir e quem deve ficar
Sob o terreiro palpitante
A terra pauta antigos dons
Memórias remotas de liturgias
Que atravessaram multidões
Marbas veria nos detritos
A origem pura das visões
Os exus veem nos cadáveres
A rota oculta das dimensões
Oh forças sombrias que sustentam
A encruza onde o além se faz
Oh sentinelas que se erguem
Quando o destino perde a paz
Senhor Tranca Ruas guia os portões
Senhor Caveira lê o que na terra jaz
E a calunga inteira canta
Num tom que o cosmos não desfaz
Oh forças sombrias que sustentam
A encruza onde o além se faz
Oh sentinelas que se erguem
Quando o destino perde a paz
Senhor Tranca Ruas guia os portões
Senhor Caveira lê o que na terra jaz
E a calunga inteira canta
Num tom que o cosmos não desfaz