Antes da aurora adquirir medida
Antes do astro conhecer rotação
Já se concebia a potência indivisa
Matriz sem fronteira, princípio sem cisão
O firmamento excede a inteligência
Constelações cumprem remoto itinerário
A matéria participa da mesma imanência
Num cosmo insondável e originário
Florestas conservam antiga sapiência
Rios percorrem extensões continentais
Animais participam da existência
Em nexos profundos, jamais acidentais
Nenhuma criatura possui soberania
Nenhuma espécie constitui centro universal
Vida e matéria compõem uma urdidura
De reciprocidade primordial
Gitche Manitou, mistério sem medida
Potência anterior à separação
Presença difundida pela vida
Inapreensível à conceituação
Gitche Manitou, vastidão primeira
Origem além de qualquer definição
O universo não conhece fronteira
Entre existência, espírito e criação
A consciência procura categorias
Institui fronteiras para compreender
Porém o real é muito mais do que taxonomias
E permanece além do conceber
Montanha, fera, rio e firmamento
Participam da mesma relação
Nenhum fenômeno existe segregado
Da vasta tessitura da criação
O humano contempla o céu noturno
E encontra ali sua própria pequenez
Milênios passam no percurso cósmico
Civilizações conhecem sua vez
Permanece aquilo que não cabe
Na clausura estreita da razão
Mistério que precede toda linguagem
E supera qualquer formulação
Gitche Manitou, mistério sem medida
Potência anterior à separação
Presença difundida pela vida
Inapreensível à conceituação
Gitche Manitou, vastidão primeira
Origem além de qualquer definição
O universo não conhece fronteira
Entre existência, espírito e criação
Além da ideia e da nomenclatura
Permanece a incógnita primordial
Gitche Manitou, incomensurável
Mistério imanente ao universal