395px

Kraken

Astrikos Katoikos

Antes do mar ter sal, havia um escuro aguado
Um sem-fundo sem lembrança, um antigamente encostado
E nesse breu de não-horas, onde nem Deus se sabia
Foi se mexendo um vivente de friagem e maresia

Não nasceu de mãe nenhuma, nem de ova, nem barrigame
Veio dum engano antigo entre correnteza e enxame
O oceano sonhou delírio, desses delírios de alumbramento
E o Kraken foi rebentando do próprio esquecimento

Primeiro era só tentame, braço mole, escuridão
Uma vontade sem nome remexendo aquele fundão
Depois ganhou olhos grandiosos, mais velhos que pescador
Olhos de quem já viu mundos apodrecerem sem dor

Imenso Kraken, mar dos marujos, pai da funda escuridão
Quem foi que te pôs tristeza nesse antigo coração?
Teu corpo é noite sem termo nas águas do nunca-mais
E teus olhos guardam horrores anteriôres aos ancestrais

Os peixes lhe davam rumo, baleias guardavam distância
Havia nele um comando parecido com ignorância
Porque saber demais pesa, e o Kraken sabia o frio
De antes do primeiro astro aprender o seu feitio

Subiu por eras e eras, creceu de engolir tormenta
Navios eram sementes na sua fome nunca sedenta
Quando emergia, o oceano ficava cheio de idade
Igual um velho recordando pecados da humanidade

Homens contavam histórias nas tavernas dos portos
Que o bicho guardava nomes dos afogados e mortos
Que seus tentáculos eram estradas de maldição
E havia igrejas afundadas presas no seu coração

Mas o Kraken, no sozinho dos abissais sem campina
Não tinha gôsto de ódio nem gana assassina
Matava igual tempestade, sem alegria ou castigo
Pois bicho grande carrega outro jeito de perigo

Imenso Kraken, mar dos marujos, pai da funda escuridão
Quem foi que te pôs tristeza nesse antigo coração?
Teu corpo é noite sem termo nas águas do nunca-mais
E teus olhos guardam horrores anteriôres aos ancestrais

Vieram depois os homens com bronze, pólvora e mapa
Medindo tudo que existe com soberba que escapa
Queriam matar o monstro pra provar supremacia
Como menino que quebra o que não compreendia

Foram navios de guerra cortando neblina e sal
Arpões do tamanho do pavor, bombas de aço e metal
O Kraken subiu cansado, sem o furor das marés
Feito um rei muito antigo perdendo o chão dos pés

Dizem que a batalha durou sete luas adoecidas
O mar expeliu cadáveres e espumas enfurecidas
E quando o último arpão entrou no seu corpo profundo
Houve um silêncio tão grande que pareceu parar o mundo

O Kraken afundou lento, sem urro, sem maldição
Só levando para o escuro sua vasta solidão
E as águas se fecharam por cima da criatura
Como terra cobrindo nome gasto de sepultura

Imenso Kraken, mar dos marujos, pai da funda escuridão
Quem foi que te pôs tristeza nesse antigo coração?
Teu corpo é noite sem termo nas águas do nunca-mais
E teus olhos guardam horrores anteriôres aos ancestrais

Há pescadores que juram em noites de mar parado
Quando o céu fica de chumbo e o horizonte adoentado
Há um rumor nos precipícios, um resfolegar sem termo
Feito um Deus desaprendido despertando do ermo

E dizem que o Kraken dorme nos porões da amplidão
Com algas cobrindo os olhos e fúria no coração
Porque certas criaturas não recebem fim inteiro
Ficam sonhando nos abismos do primeiro nevoeiro

Imenso Kraken, mar dos marujos, pai da funda escuridão
Quem foi que te pôs tristeza nesse antigo coração?
Teu corpo é noite sem termo nas águas do nunca-mais
E teus olhos guardam horrores anteriôres aos ancestrais

Composição: Astrikos Katoikos