Com muitos tratados, cárceres e exílios
Malatesta recusou tutela e trono
Viu no estado a técnica do domínio
Na propriedade, o privilégio patrono
Não quis substituir coroa por partido
Nem burocrata por velho potentado
Pois todo poder quando instituído
Fabrica o servo que declara emancipado
Contra o dogma da fatal necessidade
Negou à história um curso providencial
Revolução exige vontade e liberdade
Ação consciente contra o poder social
Desconfiou do credo determinista
Da ciência convertida em tribunal
Pois até a razão, tornada absolutista
Pode legitimar domínio institucional
Malatesta não queria novos amos
Administrando a velha submissão
Queria livres associações humanas
Reciprocidade, acordo e cooperação
Sem parlamento ungindo hierarquias
Sem vanguarda exigindo obediência
A liberdade nasce da autonomia
E faz da solidariedade uma insurgência
Também feriu a ortodoxia anarquista
Quando a retórica adorava destruição
Violência nunca foi virtude em si mesma
Nem crueldade, método de libertação
Revolta sem projeto vira espasmo
Terror sem ética reproduz opressão
Derrubar um déspota para entronizar outro
É trocar o uniforme da dominação
Socialismo imposto pelo comissário
Lhe parecia liberdade em ataúde
Um ministério dito revolucionário
Continua ministério em plenitude
Contra o capital e contra o governante
Contra a ficção do chefe redentor
Preferiu o pacto livre entre semelhantes
À disciplina decretada pelo condutor
Malatesta não queria novos amos
Administrando a velha submissão
Queria livres associações humanas
Reciprocidade, acordo e cooperação
Sem parlamento ungindo hierarquias
Sem vanguarda exigindo obediência
A liberdade nasce da autonomia
E faz da solidariedade uma insurgência
Nem profeta, nem tribuno soberano
Nenhum futuro absolve coerção
Se a liberdade aguarda um novo tirano
Já nasceu cadáver na revolução
Morreu sem converter ideia em catecismo
Inimigo da servidão organizada
Deixando ao século uma pergunta incômoda
Que nenhuma autoridade quer formulada
Se para libertar é necessário mando
Quem libertará do libertador?
Malatesta permanece interrogando
A velha sede humana pelo dominador