No rumo das passagens do Urucuia, onde o inabitado encrespa pensamento
Vivia Zé Araticum, jagunço de pouco falamento
Homem seco de ossaria, retinto de Sol e poeira
Com oito mortes nas costas e uma febre roceira
Não carecia de coragem, carecia era de alma
Trazia no olho um escuro vagaroso antes da palma
E quando mascava fumo na boca da madrugada
Até os urutaus pressentiam qualquer coisa desandada
Foi no tempo das chuvaradas que coronel Jesuíno
Bexiguento de soberba e ódio fino
Mandou chamar o jagunço pra serviço de desgraça
Dar fim numa moça escondida prôs lados da velha praça
A menina desonrou nome, sangue e propriedade
Quero ela carcomida cedo pela funda eternidade
E pôs na mesa umas patacas, pinga, fumo e cartucheira
Enquanto zunia um aquietamento nas telhas da cumeeira
Zé Araticum saiu sozinho pela estrada deslembrada
Ouvindo o zunzum dos brejos na noite desabrochada
Os sapos davam conselho nos cantões de barro mole
E a Lua, meio adoentada, parecia uma pança de fole
A casa da moça era um quase-nada no ermo
Três galinhas, um terreiro e um pé de pau-d'alho enfermo
Mas havia um cheiro estranho de rosa velha e aguardente
Dessas cheiranças que mexem com o juízo da gente
O jagunço apeou lento, a noite ficou parada
Nem grilo, nem vento, nem alma penada
Só um riso de mulher, longe, rejeitando a escuridão
Feito faca abrindo fruta podre dentro do coração
Na varanda apareceu ela, dona Mulambo, a desmedida
Toda de preto e vermelho, toda de morte e vida
O cabelo era um escuro de tempestade sem beira
E os olhos tinham cansaços de antiga lavadeira
Maria Mulambo ria na varanda do sertão
Com rosa podre e cachaça perfumando a escuridão
Seu vestido era uma noite sem princípio nem final
Feito pecado rezando num terreiro funeral
Pitava comprido o cigarro com uma elegância de dama
Dessas rainhas sem reino da tristeza mais humana
E havia em sua risada um deboche tão profundo
Que até cachorro do mato se escondia do mundo
Ô jagunço, ela falou: Larga mão dessa encomenda
Tem sangue demais zunindo por debaixo dessa venda
A moça aí já sofreu o tanto que Deus permitia
Mais um golpe e até o inferno se enjoava da valentia
Zé Araticum deu zombaria de cobra mal ferida
Mulher, eu vendo morte pra sustento desta vida
Mas a Mulambo avançou mansa, rodando a saia no chão
Feito redemoinho nascendo no arrepio da assombração
Maria Mulambo ria na varanda do sertão
Com rosa podre e cachaça perfumando a escuridão
Seu vestido era uma noite sem princípio nem final
Feito pecado rezando num terreiro funeral
E então sucedeu o estranho, o nunca visto em vivente
O jagunço ouviu choros dentro do próprio dente
Viu mulheres sem sepulcro passando na ventania
Todas com rosto de fome, pancada e serventia
Tinha preta velha sem dedo, menina rachada ao meio
Quenga de fuça morta e mãe vazia de seio
E todas olhavam o homem com um brilho tão fundo
Que parecia abrir buracos no couro velho do mundo
Zé Araticum tremeu, tremeu de dentro pra fora
Não de faca, tiro ou morte, dessas ele ria outrora
Mas dum peso sem nome, desses que Deus desarruma
Quando resolve soprar tristeza dentro da bruma
Maria Mulambo ria na varanda do sertão
Com rosa podre e cachaça perfumando a escuridão
Seu vestido era uma noite sem princípio nem final
Feito pecado rezando num terreiro funeral
A cartucheira caiu, o punhal beijou o barro
E o homem chorou grosso, igual boi perdendo o carro
Porque viu que sua vida fôra só sangueira, acatando
Feito vira-lata sem dono cruzando desmando
Dizem que nunca mais houve jagunçagem em seu passo
Virou rezador de estrada, curandeiro sem abraço
E nas festas de umbanda, quando a madrugada esfria
Acende sete rosas pra dama Maria Mulambo da Bahia
Maria Mulambo ria na varanda do sertão
Com rosa podre e cachaça perfumando a escuridão
Seu vestido era uma noite sem princípio nem final
Feito pecado rezando num terreiro funeral