Eu estava morto e ainda padecia
Sentindo cada verme me comer
Meu corpo lentamente apodrecia
E eu não conseguia mais morrer
Morri, mas meu corpo ainda sabia
Cada larva que vinha me roer
Debaixo da mortalha, a matéria cedia
E eu, já um cadáver, continuava a sofrer
Senti meu ventre entregue à podridão
Meus olhos liquefeitos na caveira
Mil vermes trabalhando a corrupção
Devorando-me a carne derradeira
Vieram meses, minha face se desfez
A língua apodreceu entre os maxilares
Dos músculos restou a sordidez
Que alimentava seres aos milhares
Meu peito foi perdendo sua matéria
Meus nervos sucumbiram à voragem
Até meus ossos, livres da miséria
Surgirem sob a última carnagem
Eu estava morto e ainda padecia
Sentindo cada verme me comer
Meu corpo lentamente apodrecia
E eu não conseguia mais morrer
Por fim, cessou dos vermes o festim
Não tinham mais tendões para devorar
A carne havia terminado em mim
E os ossos começaram a branquear
Sob a terra, sem rosto e sem semblante
Restava apenas minha ossada fria
Nenhuma fibra, músculo ou ligamento
Somente eu. E ainda sentia
Eu estava morto e ainda padecia
Sentindo cada verme me comer
Meu corpo lentamente apodrecia
E eu não conseguia mais morrer