A savana ardia com o sol declinante
E a poeira dourava o rebanho distante
No centro da tarde, cansado e entristecido
Um velho elefante seguia muito envelhecido
Conhecia cada nascente e cada colina
Sabia da árvore antiga, de rota clandestina
Guardara na pele, por tantos verões
As mortes, os nascimentos, antigas estações
Crescera cercado por vozes amigas
Por trombas levantadas, por sombras antigas
Dormira ao abrigo da mesma família
Em lugares enormes de estrelas e vigília
Agora seus passos perderam vitalidade
Seu corpo carregava o peso da idade
E havia nos olhos, cansados pelo tempo
Uma espécie profunda de consentimento
A manada prosseguia, compacta e lenta
Mas ele parou junto à relva sedenta
Estendeu a tromba ao vento, escutou o rumor
E ouviu, muito longe, seu mundo interior
Ninguém compreendeu aquele movimento
Um passo para trás, depois outro, ao vento
A manada prosseguiu pela planície aberta
E a distância creceu, inevitável e certa
Reconheceu o chamado da terra
A sombra tranquila que a velhice encerra
Sabia, sem medo ou revolta
Que certas partidas não admitem volta
Ainda contemplou os seus companheiros
Os jovens, as mães, os pequenos herdeiros
E por um instante pareceu recordar
Cada nome impossível que aprendera a guardar
Depois veio a noite, imensa e vazia
Sem canto de ave, sem luz, sem companhia
Somente a madrugada, passando devagar
E o som de sua respiração no luar
Deitou-se distante da antiga família
Perto de uma acácia de pouca folhagem e vigília
A estrela mais alta velava o seu sono
Enquanto a savana guardava seu dono
E quando a manhã derramou seu clarão
Não houve despedida, nem lamentação
Apenas a relva movendo-se ao vento
E o velho elefante entregue ao tempo
Quem sabe, muito longe, na primeira alvorada
A manada tenha sentido a falta marcada
Um vazio no círculo, um espaço maior
Uma ausência sem nome no coração do redor
E assim, naquele céu de uma terra sem fim
A morte encontrou seu caminho até ele, enfim
Sozinho somente no último lugar
Porque toda uma vida seguia em seu olhar