
O Apocalipse em Lisboa
Astrikos Katoikos
Aquele novembro amanheceu com palidez funerária
Lisboa resplandecia, antiga e legendária
Nos templos, cada círio ardia entre granito
Quando um estrondo subterrâneo despertou o Infinito
A terra convulsionou sob a manhã católica
E a cidade incorporou fisionomia diabólica
Cornijas despencaram sobre a turba agonizante
E o Rio Tejo esvaziou, medonho e vacilante
Das criptas rebentou um hálito de ossário
Misturado aos responsos de um ofício mortuário
A cal, o sangue e a fuligem ungiram cada arcada
E a morte abriu seus olhos debaixo da igreja esmagada
Lisboa, por que Deus te julgou condenada?
Que astro apodrecido presidiu sua agonia?
O oceano voltou do largo em cólera exasperada
O Sol, indiferente, testemunhou seus filhos no esplendor daquele dia
O cais viu recuar a vastidão marinha
Deixando à claridade uma extensão mesquinha
Depois surgiu ao longe a líquida muralha
Levando embarcações, despojos e mortalha
Ardeu a Baixa inteira em piras colossais
E o fogo devorou capelas e portais
Sob vigas consumidas, numa atroz combustão
A carne conheceu sua última condição
Que divindade contemplaria tamanha anatomia
Sem estremecer diante daquela hecatombe fria?
Que providência inscrita em celestial tratado
Explicaria os cadáveres sob o templo desabado?
Quem sabe, sob o Atlântico, em regiões ancestrais
Existam potestades anteriores aos mortais
Certamente aquele sábado, com bruma e oceano
Veio para mostrar a todo vivente o quanto é breve o humano
Lisboa, por que Deus te julgou condenada?
Que astro apodrecido presidiu sua agonia?
O oceano voltou do largo em cólera exasperada
O Sol, indiferente, testemunhou seus filhos no esplendor daquele dia
E quando veio a noite sobre a metrópole ardente
O estuário carregava uma procissão de gente
Lisboa era uma ruína espectral junto ao mar
E as estrelas pareciam incapazes de velar
Lisboa, por que Deus te julgou condenada?
Que astro apodrecido presidiu sua agonia?
O oceano voltou do largo em cólera exasperada
O Sol, indiferente, testemunhou seus filhos no esplendor daquele dia



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