Junto ao burgo de Valdruna
Num arvoredo capulento
Habitava um diabrete
Dado a logro e fingimento
Tinha orelhas de morcego
Olhos cor de verdelim
E um temperamento de ferrão
Que prenunciava o ruim
Toda tarde se ocultava
Sob um teixo ou sabugueiro
À espera de algum incauto
Lenhador ou caminheiro
Cuidado com o diabrete
Do fragoso matagal
Muita gente foi buscá-lo
E foi ceifada pelo Mal
Ora surgia qual donzela
Ora qual monge beneditino
Ora qual cervo dourado
Saltitando no vespertino
E o sujeito, curioso
Sem suspeita do ardil
Penetrava mata adentro
Por um carreiro sutil
Lá o Maligno assobiava
Uma ária singular
E a pessoa, fascinada
Já não pensava em voltar
Cuidado com o diabrete
Do fragoso matagal
Muita gente foi buscá-lo
E foi ceifada pelo Mal
Dizem velhos pergaminhos
Guardados no mosteiro
Que ele vive lá até hoje
Junto ao bosque traiçoeiro
Quando a névoa se adensa
Sobre o musgo matinal
Ainda ecoa sua gargalhada
Pelo vale atemporal
E quem segue aquela trilha
Por descuido ou devaneio
Pode acabar figurando
Nalgum obituário de jornaleiro
Cuidado com o diabrete
Que se esconde no carrascal
Quem escuta sua risada
Pode ter destino fatal
Cuidado com o diabrete
Do sombrio arvoredo
Pois o bosque guarda nomes
Que o tempo deixou em segredo