Quando o badalo do carrilhão
Verteu a hora vesperal
Surgiu um homem taciturno
Pelo arrabalde senhorial
Violino junto ao gibão
Olhar de breu luciferino
Cada volta dos cravelhos
Vergava o ânimo campesino
O albardeiro largou a sovela
O correeiro o talabarte
O esculca esqueceu a ronda
O beleguim largou sua arte
Ninguém sabia sua estirpe
Nem seu solar, nem seu pergaminho
Só ouviam a solfa obsedante
Colear por cada caminho
Tange, homem do violino
Sob o pálio abissal
Cada volta dos cravelhos
Firma um pacto infernal
Tange, homem do violino
Com seu riso pontifical
Cada solfa arrebanhada
Desce ao fosso abismal
O rendeiro abandonou
Seu almocafre ferrugíneo
O vedor largou os registros
O preboste o escrutínio
Moças, anciãos e noviços
Sob estranho sortilégio
Seguiam a arcada funesta
Como súditos de um colégio
Nem matraca, nem sermônio
Nem responsório latino
Desfaziam a peçonha
Daquele arco peregrino
E a cantiga serpenteava
Por desvão e labirinto
Feito grimório proscrito
Vindo de remoto recinto
Tange, homem do violino
Sob o pálio abissal
Cada volta dos cravelhos
Firma um pacto infernal
Tange, homem do violino
Com seu riso pontifical
Cada solfa arrebanhada
Desce ao fosso abismal
Após páramos de escória
E alcantis de basanita
Avistaram pequenas cidades
De arquitetura maldita
Havia obeliscos rútilos
Havia ameias de fuligem
Havia portas ciclópicas
Guardando antiga vertigem
Foi então que compreenderam
A razão do desatino
O senhor de toda a marcha
Era o homem do violino
Sob o gibão consumido
Ocultava-se o rival
Recolhendo alma por alma
Para seu feudo infernal
Tange, homem do violino
Sob o pálio abissal
Cada volta dos cravelhos
Firma um pacto infernal
Tange, homem do violino
Com seu riso pontifical
Cada solfa arrebanhada
Desce ao fosso abismal