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Salvador com Cortesia

Astrikos Katoikos

Eô
Eô
Eô

Cheguei na Bahia num lusco de agosto
Com gosto de pimenta e cravo-da-índia
E o casario do Pelourinho
Escorria preguiça e cantiga

Mulatas de torso luzidio
Vendiam vatapá na calçada
Enquanto um malandro de linho branco
Ria comprido pra namorada

Eô
Eô
Eô

No terreiro do Engenho Velho
Roncava couro de ilu e rumpi
E uma menina de conta azul
Rodava lenta feito siri

Grande Salvador de azulejaria
De candomblé e maresia
Cada ladeira guarda um denguinho
De feitiço, despacho e cortesia

Pai-de-santo mascava fumo
Olhando longe pro Abaeté
Como quem ouve coisa antiquíssima
Misturada com dendê e rapé

Na feira grossa de São Joaquim
Tinha pitanga, acarajé e maçã do amor
E um velho umbandista recitava
Modinha triste de pescador

Eô
Eô
Eô

Lá pras bandas do Rio Vermelho
Boêmios bebiam licôr de jenipapo
E o mar batendo nas pedras negras
Parecia rezar num idioma banto

Grande Salvador de azulejaria
De candomblé e maresia
Cada ladeira guarda um denguinho
De feitiço, despacho e cortesia

Na Ladeira do Passo velha
Um capoeirista gingava macio
Chapéu de palha, navalha oculta
E um riso morno de desafio

Perto do Mercado Modelo
Negras lavavam pano e canção
Enquanto o cheiro de peixe frito
Se misturava com alcatrão

Eô
Eô
Eô

Quando subi pro Bonfim alto
O céu da tarde ficou lilás
E Salvador me entrou no sangue
Feito saudade que nunca se desfaz

Grande Salvador de azulejaria
De candomblé e maresia
Cada ladeira guarda um denguinho
De feitiço, despacho e cortesia

Grande Salvador de azulejaria
De candomblé e maresia
Cada ladeira guarda um denguinho
De feitiço, despacho e cortesia

Composição: Astrikos Katoikos