Tranca-Ruas das Almas, porteiro do destino
Quem cruza teu caminho não volta menino
Tua chave é o mistério, tua lei é o luar
Teu ensino é coluna que vai te sustentar
No meio das encruzas dorme a noite do mundo
O vinho das sombras verte em cálice profundo
Tranca-Ruas caminha, sem pressa, sem rumor
Guardando os que se perdem no beiral da dor
Nas alamedas do cemitério, o vento é seu irmão
Sabe os nomes sem lápide, o pó, a confissão
As velas tremem quando ele passa, lento e calado
Com capa de breu e olhar de tempo queimado
Viu reis caírem, santos mentirem, viu fé se vender
Mas ainda acende charutos pra alma entender
O aço de seu cajado risca o pó da condição
Abrindo portais invisíveis na carne da perdição
Tranca-Ruas das Almas, porteiro do destino
Quem cruza teu caminho não volta menino
Tua chave é o mistério, tua lei é o luar
Teu ensino é coluna que vai te sustentar
Lá onde as almas gemem, confusas e cansadas
Ele escuta o clamor das promessas desonradas
Toma nos braços quem foi negado e esquecido
Lava com cachaça o pranto do arrependido
Cavaleiro das fronteiras entre o nada e o além
Tua casa é o cruzeiro, tua estrada ninguém tem
Nos becos do pensamento, tua sombra vigia
O crime, a fome, o amor, tudo vira liturgia
Tranca-Ruas das Almas, porteiro do destino
Quem cruza teu caminho não volta menino
Tua chave é o mistério, tua lei é o luar
Teu ensino é coluna que vai te sustentar
Sob a Lua encardida, risca o chão com a mão
Faz do pó seu rosário, da escuridão a celebração
As almas o seguem, trêmulas, sem morada nem nome
E ele reparte com elas o resto do lume e da fome
Há quem te tema, há quem te invoque com tremor
Mas só o justo conhece teu disfarce de terror
Sob o chapéu gasto há um olho que não dorme
E um coração de brasa que o inferno não conforma
Quando finda o dia e o sino das almas ressoa
Ele senta num túmulo e conversa à toa
Conta histórias antigas, de quando era homem e erro
E chora um pouco, lembrando o primeiro enterro
Tranca-Ruas das Almas, rei do limiar
Ensina o que a morte não sabe ensinar
Teu passo é o som da verdade nua
No pó das tumbas, ainda é tua rua