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Carta Ao Menino da Justiça

Bernardo Sena

Ó meu menino sem xícara
Ó meu menino da fila
Dos olhos que choram, da espera infinita
Hoje eu te chamo, vem me escutar
A justiça chegou, eu vim te buscar

Chegou, chegou, o tempo de falar
Chegou, chegou, o tempo de curar

No balcão do mundo, te negaram o direito
Te fizeram calar, esconder o defeito
Mas eu te vi, menino cansado
Tentando sorrir num campo minado
As senhoras da lei, viram o rosto
Taparam os ouvidos, julgaram o teu posto
Mas hoje eu falo, por ti e por mim
Pelos que sofrem, no mesmo jardim

Não é castigo, é o sistema que falha
Não é loucura, é a alma que fala

Eu ergo minha voz, por todos nós!
Eu queimo o silêncio, em nome da paz!
Eu olho no espelho e digo: Sou mais!
O erro é do mundo não me punirá mais!

Sou mais! Sou mais!
Sou digno, sou paz!

Eu vi irmãos, nas filas da dor
Sendo culpados por um erro maior
Todos pagando pelo sistema quebrado
Corpos cansados, olhares calados
E vi a mim mesmo, em cada olhar
A mesma injustiça, o mesmo lugar
Mas hoje eu sei: Não sou o culpado
Sou o guerreiro que foi acordado

Não é fraqueza, é a ferida gritar
Não é castigo, é a chance de lutar

Menino, segura minha mão
Agora eu sei, onde está a razão
Não cairei mais no jogo, no laço
Nem no interrogatório, nem no embaraço

Preparado, mais forte, mais claro
Não mais vítima, agora eu encaro

Eu ergo minha voz, por todos nós!
Eu queimo o silêncio, em nome da paz!
Eu olho no espelho e digo: Sou mais!
O erro é do mundo não me punirá mais!

Sou mais! Sou mais!
Sou digno, sou paz!

Menino, descansa, eu te encontrei
A culpa era sombra mas a luz, eu sei
Na próxima batalha, irei preparado
Com a verdade no peito e o olhar firmado

Não estás só, não estás só
És justiça, és farol
Não estás só, não estás só
És justiça, és farol

Composição: Bernardo Nobre Soares de Sena