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O Grito e a Caixa

Bernardo Sena

No banco da espera, eu sentei cansado
Caixa nas mãos, coração apertado
Silêncio pesa, o tempo não anda
E surge a criança, com voz que comanda

Ela não fala, mas me abraça forte
Lágrima cai, purifica a sorte
Fogo e água dançam no peito
O grito vem, é sagrado o jeito

Grita, menino, tua voz é lei
Chora, menino, que eu te escutei
Fogo e água, dor e verdade
Tua lágrima é tua liberdade

No som do choro, entendo o passado
Não é ruído, é verbo sagrado
O mundo não ouve, mas eu compreendo
É língua da alma, é cura que acendo

Levanto do banco, com a caixa na mão
Saio do castigo, renasço em ação
Não peço favor, exijo meu direito
Sou dono da vida, sou digno, sou feito

Não mais o canto do castigo
Agora o passo é do amigo
A criança forte caminha ao lado
E o homem cura o seu passado

A caixa é pesada, mas leve é meu ser
Pois levo comigo o que escolhi renascer
A atendente encara, eu encaro também
Não temo mais o poder de ninguém

O grito é fogo, a lágrima é rio
Que apaga a vergonha, que limpa o vazio
No espelho da dor, vejo a face da luz
A criança me guia, a verdade conduz

Não espero mais, no banco do medo
Ergo a voz, enfrento o enredo
Sou eu quem fala, sou eu quem age
Sou justiça viva, sou minha coragem

Sou digno, sou livre, sou paz
Sou digno, sou livre, sou paz
Sou digno, sou livre, sou paz

Obrigado por me ouvir
Agora eu posso existir

Composição: Bernardo Nobre Soares de Sena