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Sem Música

Daniel Viglietti

Sin música

Si pudiera recorrer las venas hacia atrás,
gargantas vivas, el origen del sonido,
o adelante, como mano,
Benjo Cruz siguiendo al Che,
recorrer tus ojos claros, agrónomo Salerno,
vigía de la planta de la vida,
o guardar tus huellas digitales, Víctor Jara,
o cantando retomar los clavijeros,
la nota libre, clave de sol o estrella,
o de oído como en la selva boliviana.

Descifrando cada ruido, si pudiera
con la guitarra hacer un fuego,
incendiar los enemigos
que nos queman,
negarles agua como ellos,
y que el fuego tenga voces,
las de Víctor, Jorge, Benjo,
populares.

Si pudiera abrir las bocas, las guitarras,
fundir las barras de metal, hacer cuchillos,
borrar de la tierra a los traidores
con el filo media luna pequeñita de Bolivia,
ser agujero de la bala de Trelew,
horizonte rojo octubre sobre Pando,
sol herido que ilumina desde Iquique.

Si pudiera vengativo, generoso,
hacer justicia,
proclamar entre todos,
obreros, campesinos,
indios, negros, estudiantes,
mineros, pescadores, sieteoficios,
soldados de lo nuevo,
si pudiéramos ya todos alzar las voces claras,
las de Benjo, Jorge, Víctor
y las que no sabéis;
las voces que son nietas de Hidalgo,
son cielitos ya sin nubes ni rapiñas.

Si pudiéramos, entonces
no tendríamos la dulce obligación
de asumir la angustia de estar vivos
sin un arma todavía entre las manos,
como quietos.

Sem Música

Se eu pudesse percorrer as veias para trás,
gargantas vivas, a origem do som,
ou para frente, como uma mão,
Benjo Cruz seguindo o Che,
percorrendo teus olhos claros, agrônomo Salerno,
vigia da planta da vida,
ou guardando suas digitais, Víctor Jara,
ou cantando retomar os afinadores,
a nota livre, clave de sol ou estrela,
ou de ouvido como na selva boliviana.

Decifrando cada barulho, se eu pudesse
com a guitarra fazer um fogo,
incendiar os inimigos
que nos queimam,
denegar-lhes água como eles,
e que o fogo tenha vozes,
as de Víctor, Jorge, Benjo,
populares.

Se eu pudesse abrir as bocas, as guitarras,
fundir as barras de metal, fazer facas,
apagar da terra os traidores
com a lâmina meia-lua pequenininha da Bolívia,
ser buraco da bala de Trelew,
horizonte vermelho outubro sobre Pando,
sol ferido que ilumina desde Iquique.

Se eu pudesse vingativo, generoso,
fazer justiça,
proclamar entre todos,
trabalhadores, camponeses,
índios, negros, estudantes,
mineradores, pescadores, sete ofícios,
soldados do novo,
se pudéssemos já todos levantar as vozes claras,
as de Benjo, Jorge, Víctor
e as que vocês não conhecem;
as vozes que são netas de Hidalgo,
são cielitos já sem nuvens nem saques.

Se pudéssemos, então
não teríamos a doce obrigação
de assumir a angústia de estar vivos
sem uma arma ainda entre as mãos,
como parados.

Composição: Daniel Viglietti / Héctor Numa Moraes