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Cidade Do Medo

Danilo Pinheiro

Sirenes
Mais uma noite
Mais uma mãe esperando alguém voltar pra casa
Mais uma notícia que amanhã ninguém vai lembrar

A sirene corta a madrugada feito faca no silêncio
Mais uma família vivendo o peso do sofrimento
A cidade não dorme, ela só fecha os olhos cansada
Tentando esquecer a dor que visita cada quebrada
A mãe faz oração antes do filho sair
Porque hoje em dia voltar já é motivo pra sorrir
O trabalhador pega o ônibus ainda sem amanhecer
Sem saber se vai voltar pra quem ama ao anoitecer
Na televisão aparecem números e estatísticas
Mas não mostram o vazio deixado nas famílias
Não mostram a cadeira vazia durante o jantar
Nem a saudade que ninguém consegue explicar
E eu vejo gente boa perdendo a esperança
Enquanto o medo vai roubando os sonhos das crianças
Que aprendem sobre violência antes da educação
E crescem acreditando que isso é condição

Essa é a cidade do medo
Onde a paz virou exceção
Onde o inocente paga caro
Por erros que não são seus, não
Cidade do medo
Onde a fé resiste por um fio
Mas enquanto existir esperança
Ainda existe um caminho

O menino joga bola na rua olhando pros dois lados
Não por causa dos carros, mas dos riscos espalhados
A infância vai ficando pequena cedo demais
Quando crescer significa sobreviver aos vendavais
A dona Maria abre a porta da padaria
Cumprimenta os vizinhos e começa mais um dia
Mas no fundo ela carrega a mesma preocupação
Que mora em cada esquina dessa população
As vielas conhecem histórias que ninguém contou
De quem lutou honestamente mas nunca apareceu
Porque manchete só mostra tragédia e confusão
Mas existe heroísmo escondido na população
Tem pai fazendo hora extra pra sustentar a família
Tem mãe criando três filhos sem perder a dignidade na trilha
Tem gente enfrentando o caos sem desistir da missão
Mesmo quando a realidade pesa no coração

Essa é a cidade do medo
Onde a paz virou exceção
Onde o inocente paga caro
Por erros que não são seus, não
Cidade do medo
Onde a fé resiste por um fio
Mas enquanto existir esperança
Ainda existe um caminho

E eu me pergunto até quando isso vai durar
Até quando a gente vai se acostumar
Com notícia de morte virando rotina
E a violência dominando cada esquina
Porque o medo não deveria ser normal
Nem o luto constante virar algo banal
A gente merece muito mais do que sobreviver
A gente merece viver sem precisar temer
Mas apesar da escuridão eu ainda vejo luz
Nos que continuam caminhando mesmo carregando cruz
Nos que acordam cedo e insistem em sonhar
Mesmo quando o mundo tenta fazer parar
Porque a cidade também é feita de resistência
De gente simples carregando sua essência
E enquanto existir alguém disposto a lutar
A esperança ainda vai respirar

Não são os prédios
Não são as ruas
Não são as avenidas
Uma cidade é feita de pessoas
E enquanto existir amor
Ela ainda pode ser reconstruída

Essa é a cidade do medo
Mas não será assim pra sempre
Porque a força do povo é maior
Do que aquilo que a gente sente
Cidade do medo
Ainda tenta nos ferir
Mas enquanto houver esperança
A cidade vai resistir
Mais uma noite termina
Mais uma família agradece
Mais uma criança sonha
E a cidade continua respirando

Composição: Danilo Pinheiro