O ano nasce em tons de sempre
A rua repete o mesmo gesto
Sinais piscam sem dizer nada
E eu atravesso sem me atravessar
Rostos passam como vento
Sem tocar o que vibra por dentro
Tudo insiste em repetição
Como um filme esquecido em si
O caminho engole as horas
A sala dissolve os meus dias
E eu deixo o tempo escorrer
Pelas frestas da rotina
Era tudo tão
Linha reta demais
Até um ruído leve
Desfazer os sinais
Você pousou
Você pousou
Bem do meu lado
E o tempo parou
O tempo parou
Desaprendeu o passo
Você pousou
E tudo mudou
Sem nem me avisar
Teu silêncio ficou
Teu silêncio ficou
Pra sempre em mim
Teu olhar mora longe daqui
Encostado na janela do nada
Como quem não cabe inteiro
No molde pálido da sala
E ainda assim, você flutua
Leve onde tudo pesa
Como um erro improvável
Na lógica fria do dia
Quis dizer qualquer palavra
Mas a voz virou vertigem
E antes mesmo de existir som
Já inventei versões de nós
Teu jeito torto de ser
Desalinha o que era exato
E o comum, sem aviso
Se desfaz em abstrato
Você pousou
Você pousou
Bem do meu lado
E o tempo parou
O tempo parou
Desaprendeu o passo
Você pousou
E tudo mudou
Sem nem me avisar
Teu silêncio ficou
Teu silêncio ficou
Pra sempre em mim
Será eco ou pressentimento?
Ou só excesso de pensamento?
Como pode algo tão breve
Virar tudo aqui dentro?
Você pousou
Você pousou
E não foi igual
E o tempo parou
O tempo parou
Saiu do normal
Você pousou
E me mudou
Sem explicação
Teu silêncio ficou
Teu silêncio ficou
Virou direção
O dia ainda é o mesmo
Mas já não passa vazio