Lamento do Sena
No fundo do Sena
Tem ouro,
Barcos enferrujados,
Joias, armas.
No fundo do Sena
Tem mortos.
No fundo do Sena
Tem lágrimas.
No fundo do Sena
Tem flores,
De lama e de barro
Elas se alimentam.
No fundo do Sena
Tem corações
Que sofreram demais
Pra viver a vida.
E então as pedras
E as bestas cinzas,
A alma dos esgotos
Soprando venenos,
Os anéis jogados
Por quem não foi entendido,
Pés que uma hélice
Cortou do tronco.
E os frutos amaldiçoados
De ventres estéreis,
Os brancos abortados
Que ninguém amou,
Os vômitos
Da grande cidade,
No fundo do Sena
Tem isso.
Ó Sena clemente
Onde vão os cadáveres
Ó leito cujos lençóis
São feitos de lodo.
Rio dos descartes
Sem farol nem abrigo,
Cantora embalando
A morgue e as pontes.
Receba o pobre
Receba o pobre
Receba a mulher
Receba a mulher
Receba o bêbado
Receba o bêbado
Receba o louco
Receba o louco
Misture seus soluços
Ao som de suas lágrimas
E leve seu coração
E leve seu coração
E leve seu coração
Entre as pedras.
No fundo do Sena
Tem ouro,
Barcos enferrujados,
Joias, armas.
No fundo do Sena
Tem mortos.
No fundo do Sena
Tem lágrimas.