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Eterna

Francisco Alves

Quando no céu, de estrelas prateado
Fito, extasiado, triste o meu olhar
E penso em ti, morena do meu sonho
Sinto, tristonho, um queixume a exalar

Eu tenho, então, minh'alma invadida
Por um ciúme atroz, a torturar
Porque a fitar o céu, pergunto, ao negro manto
Para que te amo tanto se só sabes desprezar

Eu oiço, então, um cascatear daquela fonte
Oiço o murmúrio do riacho sob a ponte
E enquanto a fonte despeja as suas águas
Em mim transporta o amor num caudal de mágoas

Se algum dia tu chegares a amar
Tragar o fel desta silente, triste dor
Tu sentirás, como jamais sentiste
A dor pungente, triste, do náufrago do amor

Tu tens, mulher, um coração de gelo
E o negror do teu lindo cabelo
Fazem de ti conjunto encantador
Pois que pareces toda feita para o amor

Quando eu morrer, talvez tu chorarás
Ouvindo alguém esta canção cantar
Então direi a ti, mulher, que amei tanto
Que sequer não valho o pranto que a dor vem mendigar

Composição: Eduardo Souto