As almas
Não nascem uma vez
Naci sem nome, sem lar, sem proteção
Favelas de Beltrão, só fome e chão
Aprendi cedo a lutar pela ração
Enquanto o mundo ignorava minha respiração
Chamavam de lixo, de resto, de erro
Mas eu guardava um ódio calmo no peito, sincero
Cada passo era frio, cada dia mais fero
Mas dentro de mim, algo ainda estava inteiro
Então, veio o impacto, veio a dor
Veio a memória de outro corpo, outro amor
Haruto Amakawa, Japão, outra vida
Outro mundo, outra despedida
Duas almas num só olhar
Duas dores tentando se encaixar
Eu lembrava da morte, eu lembrava do céu
Eu lembrava de alguém que nunca disse adeus
Eu não sei se sou Rio, eu não sei se sou Haruto
Mas sei que cada dor me mudou minuto a minuto
Se eu carrego duas vidas no coração
Então meu destino não cabe numa só mão
Um grito no meio da multidão
Uma lâmina cortando o destino da nação
Meu corpo reagiu sem pensar
Eu salvei uma princesa sem saber explicar
E num segundo, o órfão virou exceção
Da lama direto para a academia da nobreza e da pressão
Olhares frios, palavras cortantes
Nobre não cai, plebeu não avança
Mas meu silêncio falava mais que a arrogância
A minha presença quebrava a distância
Eles tinham nome, eu tinha cicatriz
Eles tinham sangue, eu tinha a raiz
Celia ela foi luz no meio do caos
Quando eu só via muros e finais
Ela acreditou quando ninguém viu
Que um órfão também podia ser sutil
Duas vidas, um corpo por Sol
Um passado que pesa, um futuro maior
Eu não escolhi nascer assim
Mas escolhi não desistir de mim
Então ela surgiu do nada, espírito luz, lâmina sagrada
Aishia não fala, mas entende
Ela luta quando o mundo me ofende, ela é silêncio que protege
Ela é a força que não pede
Latifa chorava em silêncio, presente quebrado pelo sofrimento
Eu vi nela o que eu fui, uma criança tentando não cair
Quando segurei sua mão, eu prometi proteção
Não como herói, mas como alguém que também sangrou
Porque eu não luto por glória, eu luto por memória
Por tudo que eu perdi, por tudo que ainda posso construir
Eu não busco trono, eu busco sentido
Entre quem eu fui e quem eu tenho sido
Se o mundo me odeia, eu sigo calmo
Se o mundo me testa, eu sigo em silêncio
Porque quem carrega duas vidas
Não teme mais o tempo
Yeah, yeah! E no meio de outro mundo
Meu passado reaparece
Miharu, o nome que ainda aquece
Ela não sabe quem eu sou, mas meu coração reconheceu
Que algumas conexões nem a morte rompeu
Eu sou Rio!
Eu sou Haruto!
Eu sou o eco do que nunca foi resoluto
Entre dois mundos eu caminho só
Mas meu destino não pede dó
Algumas almas reencarnam
Outras despertam
Eu despertei
Entre duas vidas
Eu escolhi viver