Estava ela em completa aquiescência
Do momento em que tudo se revela
Como um quadro mórbido
De tinta vermelha, tirada dos pulsos
Que escorre e pinta o chão
Sem compaixão
E, ao deflagrar a dor, não sentiu medo
Não sentiu amor, tampouco pensou
Em cercear seu sofrimento
Era, naquele instante, libertação
A mais absurda forma de paz
Incólume a tudo, em seu ato indelével
Sentiu um frio imenso, ou seria um calor absurdo?
Mas não importava mais
Pois era um momento de paz
Seu corpo em altercação
Com seus próprios sentidos
Uma vontade súbita de recuar, ou era tarde?
Talvez alguém ainda aparecesse
Mas o tempo, o tempo já não era seu
E quantas Clarisses
E agora, Valérias
E amanhã quantas outras
Escutando o pêndulo do relógio
Ou a ampulheta fiel ao tempo
Desvaindo em seus próprios segundos
Das quais já não têm tempo algum
A pungência que lhe tomava era sua respiração
Ofegante, áspera, sem retorno
Era o seu momento final
Seu último ato, solitário, invisível
E quantas Clarisses
E agora, Valérias
E amanhã quantas outras
Vão sufocar em silêncio
Vão morrer sem que ninguém
As ouçam ou entendam
E elas irão se matar
E elas irão se matar
E elas irão se matar
Sem ninguém pra ajudar
Sem ninguém pra ajudar
Sem ninguém pra escutar
Sem ninguém, pra escutar