Como uma pedra que afunda
No silêncio de um olhar
Ou a sombra que se espalha
Quando a tarde vai deitar
Como o sopro de um segredo
Na cortina de um lugar
Você vem sem querer
E me faz recomeçar
Como um barco em correnteza
Sem destino pra voltar
Como o vento em minha mesa
Bagunçando o meu jantar
Como a dobra do lençol
No vazio de um lar
Você dança em minha mente
Feito marés do meu pensar
Como as horas do relógio
Que esqueceu de descansar
Como a bruma nas montanhas
Que se nega se afastar
Como o som de uma lembrança
Ecoando devagar
Você vive em cada prosa
Conjugando o verbo amar
Como a cinza no cigarro
Que insiste em fumegar
Como um filme lá na tela
Que se nega a terminar
Como um livro sem final
Que não ouso abandonar
Você gira em mim um eixo
Das marés do meu pensar
Como o som de uma criança
Correndo sem avisar
Como a luz na madrugada
Feita pra não iluminar
Como as fotos da gaveta
Que o tempo quis apagar
Você sopra em minha alma
Como as marés do meu pensar
Como o risco no espelho
Que não dá pra disfarçar
Como o outono na calçada
E as folhas a se espalhar
Como a rima que resiste
Mesmo sem se completar
Você mora nesse tempo
Que insiste em não passar
E quando tudo se apaga
É você que vem ficar
Mesmo em dias sem palavra
É seu nome que há no ar
Como a brisa mais antiga
Que o tempo quis soprar
Você volta sem aviso
Como as marés do meu pensar