Queria tanto
Escrever sobre flores
Seus perfumes e odores
Mas em todas
As fases da vida, nos
Deparamos com pilhas
Volumosas de merda
Que subtraem nossa
Atenção
Rios caudalosos
Dos variados, repugnantes
E fedorentos dejetos
Montes mais elevados
Que as montanhas
Mais elevadas
Chegam a fazer inveja
Ao Everest
A perder-se
De vista
Queria tão somente
Escrever sobre flores
Seus perfumes e odores
Todavia, a pústula
Supurada, nos distrai
Existências defecadas
De seres defecantes
Meras materializações
Da genealogia
Da defecação
Quando as merdas
Acabarem
Poderemos parar
De escrever
Sobre excrementos
E passar satisfeitos
A escrever sobre flores
Seus perfumes e odores
Mas desde já
Podemos profetizar
Que o ultraje fecal
Que desaba
Em avalanche
Nunca chega ao fim
O ciclo digestório
De nossa marcha
Intestinal
E talvez esta
Seja a maior
De todas as merdas
Mas isso não significa
Bosta nenhuma
Sim, era isso o que
Eu mais queria
Escrever sobre
Flores
Composição: Bruno Michel Ferraz Margoni / Michel F.M.