Vieram de madrugada
Sem tocar a campainha
Trouxeram mapas
Listas
Medo em papel timbrado
E chamaram de futuro
O barulho seco
Que fizeram na porta
Nas escolas, apagaram nomes
Nos jornais, cortaram palavras
Havia uma sombra sentada
Em cada mesa de jantar
E um país inteiro
Aprendendo a falar baixo
Quem discordava sumia
Quem perguntava, apanhava
Quem escrevia
Rasgava o próprio verso
Antes que a noite chegasse
Mas havia sempre alguém
Guardando fósforos no bolso
Um estudante
Uma mãe
Um operário
Um padre
Uma mulher na janela
Decorando rostos
Para que ninguém fosse esquecido
É preciso lembrar sempre
Para o escuro não voltar
Toda vez que a farda manda
A liberdade vai sangrar
Quem faz do medo um governo
Faz da pátria uma prisão
Grava fundo, em cada peito
Ditadura nunca mais
Não foi ordem
Não foi paz
Foi um país amordaçado
Olhando o próprio retrato
Sem conseguir se reconhecer
Disseram: Era preciso
Mas também diziam isso
As grades
Os porões
Os passos na escada
Às três da manhã
E ainda há quem confunda
Silêncio com harmonia
Quando o silêncio, às vezes
É só o grito
Sem lugar para nascer
É preciso lembrar sempre
Para o escuro não voltar
Toda vez que a farda manda
A liberdade vai sangrar
Quem faz do medo um governo
Faz da pátria uma prisão
Grava fundo, em cada peito
Ditadura nunca mais
Se um dia outra vez vierem
Embrulhados em bandeiras
Pedindo que a memória cale
Responde alto, nas ruas
Ninguém entrega o amanhã
Para quem roubou a voz de ontem
É preciso lembrar sempre
Para o escuro não voltar
Toda vez que a farda manda
A liberdade vai sangrar
Quem faz do medo um governo
Faz da pátria uma prisão
Grava fundo, em cada peito
Ditadura nunca mais