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Duas Vidas

Newton Jayme

São duas almas unidas
Duas flores nascidas
Talvez no mesmo setembro
No mesmo chão antigo
Bebendo o mesmo orvalho
No mesmo raio de Sol

São como traços no ar
De duas asas pequenas
Num desenho no céu
Ou dois murmúrios que pousam
Ou brisas gêmeas que dançam
No clarão manso da tarde

E ninguém sabe onde começa
Uma na outra a morar

É tão junto que já não separa
É tão dentro que já não tem nome
Duas vidas no mesmo compasso
Uma entrega que o tempo não rompe
Se uma chora, a outra deságua
Se uma cala, a outra silencia
É um amor que dispensa palavras
Pra dizer que é mais de um e é além

Unidas como os prantos
Que em lágrimas descem tantos
Do fundo manso do olhar
Como o grito contido
Como um beijo repetido
Que ninguém vê passar

Como as marcas no rosto
Como um leve desgosto
Que insiste em ficar
Como estrelas no sal do mar
Espalhadas, derramadas
Sobre o escuro da imensidão

Ah, quem dera esse instante
Não se entregasse ao depois
Primavera constante
Respirando nos dois

É tão junto que já não separa
É tão dentro que já não tem nome
Duas vidas no mesmo compasso
Uma entrega que o tempo não rompe
Se uma chora, a outra deságua
Se uma cala, a outra silencia
É um amor que dispensa palavras
Pra dizer que é mais de um e é além

Juntar as flores da vida
Num gesto que não termina
Vivo ainda de amor
E ser, no tempo que passa
A mesma raiz que entrelaça
O que a vida juntou pra amar

E no que o tempo desfaz
Fica o que o amor não desata
Duas almas, uma chama
Que o mundo não apaga

Que é paciente e tudo espera
Que não se impõe, tudo sustém
Que não passa, não se encerra
Permanece, e basta

E ainda que tudo acabe um dia
E o que vemos se desfaça no ar
Há uma luz que permanece acesa

(O nosso amor)
O nosso amor jamais passará

Composição: Newton Jayme