395px

Fotossíntese do Amor

Newton Jayme

Alimento a vida que respira
Como quem reconhece no chão
O destino do próprio corpo
E ainda assim acende manhãs
Com as mãos abertas ao tempo

Há uma alma silenciosa
Aprendendo a respirar claridade

Faz do amor sua fotossíntese
Transmuta a ausência em seiva
Faz raiz do que era efêmero
E floresce onde a dor passeia

Ah, eu devoro os dias devagar
Antes que o instante se desfaça
Vou modelando o invisível em mim
Como quem transforma a vida em graça

Bebo os dias devagar
Como quem prova o instante
Antes que se desfaça
E em cada gesto guardo o mundo
No mármore bruto da existência

E o tempo adormece paciente
Mas eu insisto em ser claridade

Faz do amor sua fotossíntese
Transmuta a ausência em seiva
Faz raiz do que era efêmero
E floresce onde a dor passeia

Ah, eu devoro os dias devagar
Antes que o instante se desfaça
Vou modelando o invisível em mim
Como quem transforma a vida em graça

Não pra deter o fim que vem
Nem pra negar o que se apaga
Mas pra deixar na curva do tempo
Um gesto vivo que não se acaba

Faz do amor sua fotossíntese
Mesmo quando o mundo cansa
Faz do instante eternidade
No sopro breve da esperança

Ah, que reste no beijo um traço
Mesmo quando o corpo for memória
Pois viver é esculpir no tempo
Um sopro breve de história

E quando a última tarde fechar os olhos
Sobre os telhados do mundo
Quero partir como árvore madura
Derrubando sementes no vento

Porque o amor que se fez luz em silêncio
Não morre na ferrugem das horas
Permanece respirando
Em outros corações
Feito Sol escondido na aurora

E se um dia
Perguntarem quem fui
Digam apenas
Alguém que atravessou a noite
Acendendo estrelas e vida
Naquilo que parecia ruína

Quero partir como árvore madura
Derrubando sementes no vento