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Lei Áurea - Libertação!

Newton Jayme

No interior das consciências
Os sinos da manhã mastigam ruínas
E devolvem pássaros livres ao céu

A cidade ainda cheira
A correntes molhadas
Pela chuva antiga
Mas o vento, tão lento
Já desaprendeu o velho chicote

Hoje, a terra abre a própria garganta
E canta com voz de carvão aceso
Cada nome enterrado sem lápide
Levanta do barro
De cada dormitório do desprezo
Como raiz que recusa
O esquecimento

Não houve milagre limpo
A liberdade chegou
Com os pés feridos de estrada
Trazendo nos ombros
O peso de todos os oceanos
Atravessados à força

Ela entrou no Brasil
Como quem invade
Uma igreja incendiada
Para salvar a última vela acesa

Ó grande corpo negro da noite
Teu sangue costurou os rios
Teus braços ergueram catedrais
Onde o ouro rezava
E a fome respondia: Amém

Mas escuta

Os tambores não morreram
Dormiam sob a cal dos séculos
Esperando o instante
Em que as pedras
Também criassem ouvido

Hoje, os atabaques rasgam o silêncio
Como relâmpagos dentro da água
As mães lavam o chão das memórias
Com folhas de alecrim e incenso suave
Os meninos acendem fogueiras
Nos quintais da história
Para queimar os retratos do medo

Eis a liturgia

O pão repartido sem feitor
O vinho servido sem algema
A mesa comprida
Onde toda pele encontra lugar
Sem pedir licença ao escuro

O amor, só o amor, constrói
Catedrais nos corações

Os anjos desta noite
Não têm asas
Têm cicatrizes

E Deus passa devagar
Pelas vielas do país
Vestido de favelado e de povo
Tocando ombro por ombro
Como quem afina
Um instrumento antigo

Que nenhuma liberdade
Seja moldura vazia
Que o ouro dos palácios
Aprenda a ajoelhar-se
Diante do suor
E a cultuar o amor

Que os livros parem de esconder
O nome dos que carregaram
O mundo nas costas

Porque ainda há correntes
Com perfume de escritório
Há senzalas erguidas
Em concreto e pressa
Há silêncios vendidos
Como se fossem paz

Mesmo assim, cantemos

Cantemos como rios
Rompendo barragens
Como árvores rachando o cimento
Como um coral de estrelas negras
Reaprendendo o idioma do infinito

Hoje, a noite não termina
Ela floresce nas inúmeras
Lutas sem fim

E cada homem
Cada mulher
Cada criança
Que atravessa este país
De cicatrizes
De feridas
E de clarões
Leva no peito
Um sino invisível
Tocando liberdade
Até que o próprio tempo
Caia de joelhos
Peça perdão
Dê as mãos
E edifique
A civilização do amor

Hoje, amanhã
E depois sem fim

Sem fim

Composição: Newton Jayme