Minha casa é estrada aberta
Sem porteira nem cancela
Um trieiro comprido no peito
Que não cabe numa janela
O mundo bate na porta
E eu nem sei dizer que não
Porque o amor, quando chega
Nasce dentro, já se senta no coração
Levo a terra nos meus passos
O poeirão da roça conversa comigo
Minha pele compreende o tempo
Como um velho bom amigo
Quem aprende a ouvir a vida
No barulho ou no silêncio
Nunca fica sozinho
Mesmo morando bem
No centro do sertão
Minha amada chega
Mansa como a tarde
Descansando luz no meu olhar
Tem o cheiro bom de terra viva
Quando a chuva volta a visitar
No amanhecer, como flor, me traduz
Sem pedir palavra ou explicação
É presença que acalma o mundo
E faz morada firme no meu coração
Amor não pede licença nem caminho
Não vem de fora, já mora em mim
É vento solto varrendo o estradão
É fogo manso que não tem fim
Não é armadilha
Não fere, não faz prisão
É céu aberto dentro do grotão
E eu, que pensei que era só passagem
Virei morada dessa grande paixão
Quando a noite chega quieta
Sem avisar sua hora
O silêncio se derrama
Feito pássaro que nasce agora
Nos cantos mais secretos
Onde a dor quis se esconder
Brota um jeito de esperança
Que não cansa de viver
O amor marcha sem grito
Não precisa se provar
É coragem que floresce
Mesmo sem ninguém olhar
Não se curva à tempestade
Nem se rende à solidão
Quem carrega amor no peito
Nunca anda triste ou em vão
Amor não pede licença nem caminho
Não vem de fora, já mora em mim
É vento solto varrendo o estradão
É fogo manso que não tem fim
Não faz armadilha
Não fere, não faz prisão
É céu aberto dentro do grotão
E eu, que pensei que era só passagem
Virei morada dessa grande paixão
É águia alta riscando o tempo
É chuva fina no pensamento
É o infinito em movimento
Fazendo eterno o que é temporão
Amor não cabe em cerca nem medida
É mais que estrada, é direção
Se tudo passa, ele faz morada
No que é breve e vira eternidade
Com os pés firmes na terra
Minha amada, luz acesa no caminho
E Deus velando cada passo do destino