A justiça não vem com espada
Vem como rio que aprende
A contornar a rocha
Insiste no curso
Do coração do mundo
Até que a dureza
Desaprenda a ser
Não é trovão que fere a noite
É luz que entra sem pedir licença
Costurando o rasgo da história
Com linhas de um amor que não desiste
Deus não pesa culpas em balanças frias
Ele acende o invisível no peito do erro
E caminha por dentro da falha
Como quem semeia em terra ferida
Sua justiça é fogo que não destrói
É brasa que purifica o nome das coisas
Até que o homem se reconheça
No olhar que o criou sem medida
É o Cordeiro que enfrenta a lâmina
Sem devolver o rasgo com outro corte
É o sangue que escreve na cruz
Uma sentença de misericórdia
Tua justiça é o amor em movimento
É o infinito tocando o chão da dor
Não é peso, é abraço que transforma
É o Teu jeito de ser, Senhor
Se me julgas, é pra me refazer
Se me chamas, é pra me recriar
Tua justiça é amar até o fim
Até tudo em mim Te encontrar
Não há desprezo para quem Te busca
Nem queda que Te impeça de entrar
Teu juízo, ó Deus, é porta aberta
Onde o perdido aprende a voltar
E quando o mundo grita por vingança
Tu respondes com mãos atravessadas
Fazendo do fim um recomeço
E da morte, passagem amada
A justiça, então, deixa de ser sentença
Vira caminho, travessia, encontro
É o amor que não volta atrás
Mesmo quando sangra por dentro