395px

Samba das Flores

Newton Jayme

É preciso musicar a vida
Com dálias na mesa e o tempo na mão
Rosas abertas na tarde que passa
Lírios guardando o silêncio do chão

E nas palmas cansadas do dia
Há um ritmo antigo querendo voltar
Feito passo de dança esquecida
No corpo de quem ainda sabe amar

Serenas violetas e orquídeas me olham
Como quem sabe o que eu não sei dizer
Margaridas desfolham o instante
Num gesto miúdo de quem quer viver

E há delírios pousando na noite
Como pássaros fora do tom
Mas é neles que a alma respira
Um resto de sonho que insiste em ser bom

Ah, deixa a vida vibrar devagar
Feito um samba de dentro pra fora
Que a dor também sabe cantar
Quando a gente não foge, e se demora

E se o mundo esquecer de florir
A gente inventa outra estação
Põe música em tudo que há
E aprende a viver de canção

Há um verso escondido no peito
Que não cabe inteiro no azul do céu
É mistura de riso e de abraço
É desejo que ainda é fiel

E entre um tropeço e outro caminho
Vou regando o que resta de mim
Com as flores que a vida me deu
Mesmo quando parecia o fim

Se faltar cor no jardim do dia
Eu desenho no ar com a voz
Porque a vida, quando é vazia
Pede música dentro de nós

Ah, deixa a vida vibrar devagar
Feito um samba que nunca termina
Que até o silêncio, ao cantar
Vira luz na esquina e tudo se ilumina

E na alma, onde tudo se refaz
Há um canteiro que ninguém vê
Mas floresce quando a gente
Tem coragem de simplesmente viver

(Eheheh)

É preciso musicar a vida
Com dálias, rosas
Lírios, girassóis
E palmas
Serenas violetas
Margaridas
Delírios
E almas

E na alma, onde tudo se refaz
Há um canteiro que ninguém vê
Mas floresce quando a gente
Tem coragem de simplesmente viver

Composição: Newton Jayme