Guardei teu nome numa gaveta
Onde o tempo não sabia entrar
Entre os cacos de uma terça-feira
E uma vontade antiga de cobrar
Fiz da mágoa um animal de guarda
Dei-lhe pão, endereço
E poder de decisão
Ela dormia ao pé da minha cama
E acordava antes do coração
Até que um dia compreendi
Vingança é dívida ao contrário
O credor termina prisioneiro
Do próprio livro-caixa do passado
Então abri as portas da memória
Não para absolver o que doeu
Mas para devolver àquela história
O inteiro de mim que ela prendeu
Perdoar
Não é chamar a ferida de mentira
Nem apagar o sangue da lembrança
É arrancar das mãos de quem feriu
A chave enferrujada da esperança
Perdoar
Não reconstrói a casa como era
Há paredes que não voltam ao lugar
Mas abre uma janela entre os escombros
Para a vida novamente respirar
Setenta vezes sete
Não são números para Deus contar
É o infinito entrando na aritmética
Para a vingança desaprender a calcular
Setenta vezes sete
Até o ódio perder a profissão
Até a pedra esquecer que foi pedrada
E reaprender o ofício de ser chão
Não te ofereço esquecimento
Esquecer seria mentir para mim
Carrego cicatrizes, não algemas
Uma coisa é ter passado
Outra é pertencer ao que teve fim
Também não volto à mesma porta
Se atrás dela ainda mora o agressor
Misericórdia não é ser cúmplice
E limite também pode ser amor
Há perdões que chegam como chuva
Outros vêm gota por gota ao coração
Há perdões que precisam de uma vida
Para atravessar um palmo de sertão
Mas eu não quero chegar ao meu último dia
Carregando desilusões dentro de mim
Nem entregar àquele que me feriu
O poder de decidir como será meu fim
Por isso hoje desarmo a memória
Tiro o dedo do gatilho da razão
Não porque a injustiça ficou justa
Mas porque não quero outra prisão
Setenta vezes sete
Que se quebre a contabilidade da dor!
Quem transforma a mágoa em patrimônio
Acaba pobre de futuro e de amor
E quando a noite fechar minha conta
Quando Deus me chamar pelo que sou
Não quero apresentar-Lhe meus inimigos
Quero apresentar o amor que me restou
Que Ele encontre minhas mãos vazias
Das pedras que eu poderia ter lançado
Meu coração sem nenhum nome acorrentado
E a velha dívida rasgada pela imensidão
Porque, no fim
Perdoar não muda
Aquilo que passou
Muda quem atravessa
E eu não atravessarei a eternidade
Arrastando as correntes
Daquilo que Deus
Já me ensinou
A soltar