Eu atravessei a vida
Com a sede em minhas mãos
Bati em tantas portas
Dei meu nome à solidão
E Tu, mais perto que o sangue
Mais profundo que a razão
Esperavas que eu voltasse
Para dentro do coração
Procurei tua presença
Nas vitrines do prazer
Quis comprar o que era graça
Quis tocar sem conhecer
Fiz do aplauso uma morada
Mas, depois que ele cessou
Ouvi passos no silêncio
Era o amor que não passou
Havia um resto de tarde
Na janela do meu quarto
E uma luz sobre os retratos
De quem se perdeu no abraço
Eu trazia tantas vozes
Já nem distinguia a minha
Tu chegaste sem alarde
Como chega a luz do dia
Não me pediste os anos
Que eu não soube oferecer
Acolheste o homem cansado
Que eu tentava esconder
Tarde te amei
Beleza tão antiga e tão nova!
Andei tão longe de casa
E tua luz guardava a porta
Tarde te amei
Mas ainda há vida em meu peito
Recebe o pouco que eu trago
Meu amor começa imperfeito
Eu buscava o infinito
No que tinha de acabar
Pedia às flores do caminho
Que ocupassem teu lugar
Hoje posso olhar a rosa
Sem cobrar que seja eterna
Sua breve formosura
Já me ensina a receber-Te
Tua voz rompeu os muros
Que ergui para me guardar
Tua luz entrou nas frestas
Que eu tentava disfarçar
Respirei tua presença
Como a terra bebe a chuva
E o desejo, antes sem rumo
Encontrou em Ti sua busca
Não apagaste a minha história
Nem as marcas que ficaram
Mas, nas páginas feridas
Novas linhas começaram
Tarde te amei
Beleza tão antiga e tão nova!
Andei tão longe de casa
E tua luz guardava a porta
Tarde te amei
Mas ainda há vida em meu peito
Recebe o pouco que eu trago
Meu amor começa imperfeito
Se eu voltar às velhas ruas
Já conheço a direção
Que eu não passe por quem sofre
Sem lhe estender a minha mão
Pois de que vale encontrar-Te
E fechar a porta ao irmão?
Que o amor que me devolves
Vire pão, vire perdão
E salvação
Tarde te amei
Beleza tão antiga e tão nova!
Agora, ao abrir minha casa
Quero abrir também a porta
Tarde te amei
E há tanto amor por aprender
Cada dia que me deres
Será tempo de responder
Não posso voltar à manhã
Para amar-Te como eu queria
Mas entrego em tuas mãos
A luz que resta deste dia
Tarde te amei
O Sol repousa na janela
Há pão na mesa
Podes entrar
A noite encontra a casa acesa
E eu já não tenho pressa
De procurar outro lugar
Só quero te servir
Meu Deus e Senhor!