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Travessia

Newton Jayme

A vida passa em tecido de água
Risca o tempo na pele do dia
E a gente veste um Sol provisório
Sem saber onde a noite termina

A beleza é punhal em luz oblíqua
Corta o instante e não deixa aviso
Dança breve na curva do espelho
E se perde no fundo do riso

A juventude é fogo sem cerca
Vento aceso na carne do agora
Arde alto, desconhece a medida
Até que o próprio ardor se devora

A alma escuta o que o corpo esquece
Fala baixo por trás do ruído
É um mar que não cabe nos olhos
É um nome que nunca foi dito

A força nasce do que se quebra
Feito vidro que aprende a cantar
Quanto mais o mundo nos curva
Mais profundo é o jeito de estar

O amor é um idioma sem dono
Um clarão na garganta do escuro
Quando tenta caber na palavra
Já transborda em silêncio maduro

A razão desenha fronteiras
Com régua fria sobre o infinito
Mas o destino ri dessas linhas
E reescreve o mapa do grito

Somos feitos de um sopro que insiste
De um quase que nunca se encerra
O destino não mora na linha
É travessia sem margem na terra

Somos água tentando ter forma
Somos chama aprendendo a durar
E no meio do que não se explica
A vida nos gasta pra nos revelar

E no fim, se é que há fim, é mistério
Não se fecha o que é feito de ir
A beleza retorna em outras mãos
E o amor muda o jeito de existir

Assim segue o fio invisível
Entre o pulso e o que há de depois
Não sabemos o nome do porto
Mas o mar reconhece quem foi

No meio do que não se explica
A vida nos gasta pra nos revelar
No meio do que não se explica
A vida nos gasta pra nos revelar

Composição: Newton Jayme