Foi numa terça, quase inverno
Você chegou depois das seis
Trazia o cabelo ainda molhado
E aquele livro que nunca terminei
Sentou no braço do meu sofá
Como quem já sabia ficar
Ela ouviu até o fim da história
E perguntou sem me olhar
Você ainda guarda alguma coisa
Que faça você se lembrar?
Fotografias, uma camisa
Um bilhete que eu não joguei
E sabe onde estão essas coisas?
Eu disse: Acho que sei
Ela virou outra página
Então comece por aí
E eu fui lembrando de todas elas
Da caixa embaixo da cama
Do ingresso dobrado ao meio
Do seu livro esquecido na sala
De tudo que eu nunca procuro
Mas sei exatamente onde está
Ela escreveu cada detalhe
Precisamos de todas
Antes de começar
Todas o quê? , eu perguntei
Ela respondeu: O que restou
Lugares, cheiros, objetos
Tudo que ainda leva ao que passou
Mas eu achei que falar ajudava
Que era assim que isso acabava
Ela fechou devagar o caderno
Não foi pra isso que você veio
E pela primeira vez naquela sala
Eu quis saber onde eu estava
Quando chove?
Eu lembro
Depois das seis?
Eu lembro
Quando toca aquela música?
Eu lembro outra vez
Quando passa naquela rua?
Eu lembro
Quando tenta não lembrar?
Eu lembro
Ela marcou mais uma linha
E perguntou sem hesitar
Alguma delas você
Não aceitaria apagar?
É claro
Ela não riu
Uma lembrança chama a outra
Não dá pra saber onde vai dar
Quando uma acender a próxima
Nós seguimos até apagar
Foi quando eu vi sobre a mesa
Embaixo do que eu contei
E entendi por que ela queria
Saber de todas elas
Eu só queria não lembrar
Sem precisar esquecer você
Queria perder aquilo que dói
Sem perder o que foi bom viver
Mas se uma lembrança chama a outra
Quem decide onde parar?
Ela empurrou a folha até mim
Você ainda quer continuar?
Olhei para a porta
Depois pras minhas mãos
No fim da página
Uma linha em branco
É aqui que eu aceito te apagar