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De Volta a Galvão

Paulo R. Rocha

Chego bem no trem das duas, mala de couro na mão
Pito um fumo, olho as ruas, que aqui não tem pressa não
Dá tempo ver as paisagens, as pouca gente, os clarão
As sombras lá da garagem, as silhuetas de vagão

Bem ali nas oficinas, juntava gente de bem
Trabalhando embaixo, em cima, pra ajeitar aqueles trem
Saía os bicho bufando das caverna encardida
Feito dragão fumaçando depois da tarde dormida

Galvão, Ramiz Galvão, o que fizeram de ti?
Roubaram teus trens e a tua estação
Só não roubaram tua paz e teu rio
E a saudade que aperta o meu coração

Pro outro lado está a ruela, casa, bodega, salão
Onde eu dançava mais ela, no clube, na Associação
Pertinho, o cinema dói abandonado no escuro
Sem Tarzan, sem um cowboy sem cartaz, pano ou futuro

E chego enfim à minha cancha, um ponto só numa linha
Onde o gaudério se arrancha ao som de cusco e galinha
Largo os avios, faço o mate fico olhando a plantação
Bergamóta, abacate laranja-lima, limão

Galvão, Ramiz Galvão, o que fizeram de ti?
Roubaram teus trens e a tua estação
Só não roubaram tua paz e teu rio
E a saudade que aperta o meu coração

Um pé de butiá no canteiro, uma roseira ressecada
E um imenso formigueiro que vai do portão à escada
As fruita tão tão magrinha tem cupim, ferruge e gia
E a casa, coitadinha chega dá uma agonia

Uma casa que foi tua de teu pai tua mãe tua irmã
Agora assim, toda nua sem Adão, Eva ou maçã
Viro as costas, na incerteza, sigo cego rua acima
Lagrimando uma tristeza de quem não acha uma rima

Galvão, Ramiz Galvão, o que fizeram de ti?
Roubaram teus trens e a tua estação
Só não roubaram tua paz e teu rio
E a saudade que aperta o meu coração

Pois quem tinha sua terra, o passado de um cristão
Vê na porta que ele cerra, o fim de Ramiz Galvão
Sento no primeiro bar lembrando o Galvão antigo
Afago as costas de um cusco como quem perdeu um amigo

Mas penso, que nesta vida, o que Deus tira e o que dá
É só justiça divina pois meu destino é andar

Composição: Paulo R. Rocha