É muito certo o ditado
Que disse um amigo meu
Não tem mole nesse mundo
Pra ser mole como eu
Eu sou tão mole dum jeito
Que tudo que eu tenho feito
Só tem dado mesmo errado
As vezes pego a dizer
Eu nascí mesmo pra ser
Um sujeito alagaiado
Certa vez eu fiz um trato
Com uma moça pra fugir
Marquei o dia e a hora
Que a gente ia sair
Marquei também o lugar
Para a gente se encontrar
Mas ela lá não foi não
Eu fui lá esperar ela
Quem chegou foi o pai dela
Com uma pistóla na mão
Quando avistei o velho
Com o revolver engatilhado
Saí doido na carreira
Correndo desesperado
E peitei com o vexame
Numa cerca de arame
Fui sair do outro lado
Lá na frente sem ação
Caí dentro um cacimbão
Quase morri afogado
Vejam só como eu sou mole
Certo dia meu irmão
Comprou um jégue fiado
A um tal de Jamelão
Mas o meu irmão coitado
Antes do prazo marcado
O seu emprego perdeu
E eu que nada comprei
Sem dever fui quem paguei
O peste do jégue seu
Minha avó me deu um pinto
Para eu criar pra mim
E eu botei ele junto
Dos pintos de Joaquim
Quando já estava um pintão
A praga dum gavião
No terreiro apareceu
E o gavião ruim
Deixou os de Joaquim
E carregou somento o meu
Eu estava almoçando
Na casa de João Feitosa
A comida estava boa
Bem feita e muito gostosa
Mas por arte do pecado
Um gato esfomeado
De repente apareceu
E o desgraçado do gato
Passou por todos os prato
E veio fuçar no meu
Comprei uma bicicleta
A um tal de Irineu
E assim que lhe paguei
Ele desapareceu
Mas deixa que o danado
Tinha a mesma roubado
E o dono apareceu
Me chamando de pateta
Tomou logo a bicicleta
E quem perdeu tudo foi eu
Fui caçar péba e tatu
Numa mata bem fechada
Caçei a noite inteira
Mas porém não matei nada
Quando pra casa voltei
A mulher não encontrei
Um macho levou pra Souza
Isso foi uma desgraça
Além de perder a caça
Perdi também a esposa
Um dia eu vendi um carro
A um tal de João do Reque
Ele estava sem dinheiro
Mas me pagou com um cheque
Assim que o cheque me deu
Ele desapareceu
Em menos de um segundo
Fui ào banco bem vexado
Lá no banco fui barrado
Que o cheque era sem fundo
Minha moleza é demais
Eita moleza da peste
Eu acho que sou o cara
Mais mole aqui do nordeste
Pra deixar de mole ser
Só mesmo quando eu morrer
E está perto esse dia
Mas enquanto vivo eu for
Serei sempre sem valor
Mole igual desenteria
Composição: Poeta J. Sousa