Pra quem gosta de histórias
Que vem da zona rural
Este cordel com certeza
É muito especial
Com atenção leia ele
Que a história escrita nele
Você vai achar legal
Neste cordel vou contar
Pra você leitor querido
Uma história que vai
Alegrar o seu ouvido
De modo absoluto
É a história de um matuto
Que achou que tinha parido
Mané Zito era um matuto
Que nunca havia passado
Por uma dor de barriga
Nem também bucho inchado
Mas um dia ele comeu
Na casa de um primo seu
Bastante milho assado
Ele comeu mais ou menos
Sete espigas de milho
Ainda comeu mais uma
Deixada pelo seu filho
Enquanto o milho comia
Ele ao seu primo dizia
Eu sou comedor, Castilho!
Zé Castilho primo dele
Começou a lhe dizer
Tem pamonha e tem canjica
Se quiser pode comer
Não vá ficar com vergonha
Coma canjica e pamonha
Até o bucho encher
Ele foi para a cozinha
E lá comeu ligeirinho
Três pamonhas e um prato
De canjica bem cheinho
Depois que o bucho encheu
Ele disse ao primo seu
Eu vou pra casa, Zezinho!
Aí ele foi pra casa
Cheio de satisfação
Quando em casa chegou
Deitou-se em um colchão
Para um pouquinho dormir
Mas começou a sentir
Uma estranha sensação
Comecou sentir o bucho
Crescendo muito e doendo
Aí ele levantou-se
Arrotando e gemendo
E dizendo a chorar
Meu Deus o que é que estar
No meu bucho acontecendo?
O grande excesso de milho
Que ele comeu assado
A canjica e a pamonha
Que ele tinha devorado
Sem dúvida alguma fez
Sim, pela primeira vez
Seu bucho ficar inchado
Como ele nunca tinha
Da barriga adoecido
Sentir o bucho doer
Ficando duro e crescido
Igual o bucho dum boi
Para ele isso foi
Algo bem desconhecido
Ele muito aperreado
Sem saber o que era aquilo
Foi na casa de um amigo
Que se chamava Murilo
Chegando lá lhe falou
Meu amigo eu estou
Com medo e intranquilo
Murilo lhe perguntou
O que foi que aconteceu
Com você meu amiguinho?
Por favor conte pra eu
Por que estás intranquilo?
Aí ele pra Murilo
Dessa forma respondeu
Oh Murilo eu estou
Vendo a hora me acabar
O que eu sinto no bucho
Sei que não vou suportar
O meu bucho está doendo
Ficando fofo e crescendo
E roncando sem parar!
Quando ele disse isso
Ao amigo beradeiro
O amigo lhe falou
Por essa forma ligeiro
Amigo, eu sei o que é
Você vai ter um bebé
Você está grávido, parceiro!
Escute bem o que eu
A você estou dizendo
Você vai ter um menino
E vá pra casa correndo
Vá ligeiro sem demora
Que eu não dou meia hora
Esse bebé tá nascendo!
Nisso o matuto voltou
Pra sua casa correndo
Soltando arroto chôco
Bufando muito e gemendo
E ele se contorcia
Gritava alto e dizia
O meu bucho está doendo!
E o matuto corria
Que o pé batia na bunda
De vez em quando soltando
Uma catinga imunda
E com o pranto caindo
Dizia: Eu estou sentindo
No bucho uma dor profunda
Dizia: A se desse tempo
Em minha casa eu chegar
Para meu filho nascer
Dentro do meu próprio lar
Se ele nascer na estrada
Vai ser uma luta danada
Pra eu pra casa o levar
Não deu tempo o matuto
Em casa fazer chegada
Pois quando ele chegou
Na metade da estrada
A dor cresceu de verdade
Que lhe deu até vontade
De dar uma defecada
Quando o matuto sentiu
Vontade de defecar
Para dentro de uma moita
Correu sem se demorar
E dizia: É agora
Que meu filho sai pra fora
Bem distante do meu lar
Ele disse: É nessa moita
Que meu filho eu vou ter
Vou para debaixo dela
Pra meu menino nascer
E depois dele nascido
Levo meu bebê querido
Para casa com prazer!
Debaixo daquela moita
Estava um camalião
Socado dentro das folhas
Fora de qualquer visão
A moita o matuto abriu
Mas o coitado não viu
Aquele bicho ali não
Dentro da moita ele entrou
Tão rápido e tão vexado
Que não notou que ali tinha
Um camalião deitado
Entrou na moita a chorar
Só pensando em se livrar
Daquele buchão pesado
Ligeiro ali o matuto
A sua calsa desceu
Na hora que defecou
Grande peidaria deu
Com isso o camalião
Sentiu um susto do cão
Deu um pinote e correu
Quando o camalião
A peidaria ouviu
Saiu doido na carreira
Chega a poeira cobriu
Foi tão grande a carreira
Que devido a poeira
O matuto nem lhe viu
Quando o matuto notou
Que um bicho ali correu
Gritou bem alto dizendo
Foi meu filho que nasceu
E assim que de mim saiu
Para bem longe sumiu
Que eu nem vi o corpo seu
Quando o moleque acabou
De sair do bucho meu
Saiu doido na carreira
Nem se quer olhou pra eu
O que é que eu faço agora
O meu filho foi embora
Nasceu e escafedeu
Mas que moleque ruim
Sem vergonha e sem proveito
Saiu de mim e correu
Que eu não ví nem o seu jeito
Ou meu Deus, que covardia
Os filhos de hoje em dia
Já nasce sem ter respeito!
Descalço de pés no chão
O matuto inda correu
Atrás do camalião
Pensando ser filho seu
E gritava de mata afora
Meu filho não vai embora
Volte para os braços meu
Assim que nasce, seu peste
Fugindo de mim tu sai
Vem pelo menos moleque
Tomar bênção a teu pai!
Volta moleque cretino
Vem de pressa, vem menino
Pra onde é que você vai?
Mas que moleque danado
Assim que nasceu correu
Numa carreira tão grande
Nem se quer olhou pra eu!
E quanto mais ele corria
Mais o bicho se sumia
No matagal se meteu
O camalião sumiu
Por dentro dos matagais
E o matuto atrás dele
Não aguentou correr mais
Se sentindo bem cansado
Com os pés estrupiado
Desistiu de ir atrás
Desistiu dizendo assim
Meu filho eu não pego não
Aquele moleque ruim
Corre mais do que um cão
Por isso eu não peguei ele
Não ví nem a cara
Meu Deus que decepção!
Eu vou embora pra casa
Agora bem ligeirinho
Vou viver a minha vida
Dentro de casa sozinho
Do jeito de um jumento
Mas o meu maior tormento
É não ter visto meu filhinho
Voltou pra casa sentindo
Uma dor no coração
Chorando tanto que chega
Caía prantos no chão
Mas em casa não chegou
E eu para vocês vou
Explicar por qual razão
É que antes do matuto
Em casa fazer chegada
No caminho ele encontrou
Uma grande onça pintada
Que num pulo absoluto
Matou o pobre matuto
Com uma só bocanhada
Aquela fera estava
Com uma fome desgraçada
Sangrou o pobre matuto
Com uma forte dentada
E sem mais demora ter
Foi o matuto comer
Dentro da mata fechada
Os restos que ela deixou
Serviu para os urubus
E no lugar que o matuto
Morreu fizeram uma cruz
Dele ninguém está lembrando
Mas ele morreu pensando
Que tinha dado a luz
Quem não ler esse cordel
Ou também não escutá-lo
Qualquer dia uma onça
Bem feroz vai encontrá-lo
E depois que o encontrar
Vai o seu corpo rasgar
E para o bucho passá-lo
Composição: Poeta J. Sousa