395px

Purgatorio

Randerli Ribeiro

Yeah
Às vezes eu falo comigo
E nem sempre eu gosto das respostas
(Silêncio)
Mas eu sigo

Tenho medo de mim quando o espelho me encara
Vejo um moleque perdido na cara de um cara
Meu coração fuma mais que eu, tá em brasa
A saudade queima lento, tipo vela que apaga

Guardei meus erros num cofre sem chave
Prometi pra mim que mudava, e falhei outra tarde
As vozes na mente gritam mais que o alarme
O amor virou dívida, e a culpa virou carne

Meu filho cresce e eu ainda aprendo a ser pai
Queria ser exemplo, mas o exemplo se vai
As noites me cobram juros de quem ficou pra trás
A rua ensinou preço, mas nunca ensinou paz

Entre cinzas e espelhos, eu procuro redenção
Meu reflexo é o inferno, mas carrego o coração
Se o tempo cura tudo, por que ainda sangra a mão?
Cada verso é um pedido de perdão na escuridão

Já tive tudo, e mesmo assim faltou sentido
Minhas vitórias vêm com gosto de suicídio
O palco aplaude, mas o peito tá vazio
Eu rio de nervoso, porque chorar é um vício

As drogas que curei voltaram com outro nome
Agora é ansiedade disfarçada de fome
Falo com Deus, mas parece que ele some
Ou talvez eu que sumi, me perdi no meu nome

Tem hora que eu queria apagar meu passado
Mas é ele que me faz rimar mais pesado
Sou feito de falhas, de versos e pecados
Sou o vilão, o herói, o anjo enforcado

Entre cinzas e espelhos, eu procuro redenção
Meu reflexo é o inferno, mas carrego o coração
Se o tempo cura tudo, por que ainda sangra a mão?
Cada verso é um pedido de perdão na escuridão

E se amanhã eu não voltar, guarda essa faixa
É meu jeito torto de pedir que a dor se abaixe
Purgatório é lembrar do que não se apaga
Mas ainda rimo, porque cada rima me salva

Composição: Randerli Ribeiro