Meus dedos aprenderam tantos gestos
Discretos e diretos de carinho
É pena que eu te veja tão de perto
E tenha que ficar aqui sozinho
Às vezes ouço vozes pela casa
Correntes arrastadas no porão
Escuto que morcegos batem asas
E gritos de terror na escuridão
Escuto o vento forte no telhado
É tarde, a casa enorme está vazia
E escuto os sons da noite martelados
Nas teclas do piano da agonia
Me lembro de um bolero muito antigo
Perfídia, solidão ou coisa assim
Que em noite de seresta um grande amigo
Cantava soluçando para mim
Mas chega de fantasmas e lembranças
Eu quero ter teu rosto entre meus dedos
Eu quero desfazer as tuas tranças
Eu quero me perder em teus cabelos
Por isso tem uma porta sempre aberta
E guardo de reserva um grande abraço
Eu vivo de esperar a hora certa
Pois sei que vou vencer pelo cansaço