Pois é
Tem gente que nasce com o destino marcado na palma da mão
Outros a vida vai empurrando estrada afora
Eu também fui desses
Deixei pra trás um pedaço de chão vermelho
Um rancho simples, uma mãe na porteira
E um coração que não sabia viver longe daquilo tudo
Naquele dia
O trem levou meu corpo embora
Mas minha alma ficou sentada no batente da porta
Esperando eu voltar
Eu deixei minha terra chorando
Quando a estrada me chamou pra partir
Levei na mala só roupa e esperança
Mas deixei minha alma por ali
A porteira rangeu na despedida
Como quem sabe que eu não volto igual
Minha mãe escondendo o pranto
E o céu se fechando no meu quintal
O trem apitou cortando a distância
Fez meu peito se despedaçar
Quem sai do sertão leva o corpo
Mas o coração fica lá
Saudade não tem porteira
Nem cerca pra segurar
Ela entra sem pedir licença
E começa a machucar
Eu posso ter tudo na cidade
Dinheiro pra me sustentar
Mas a riqueza da minha roça
Eu nunca mais vou encontrar
Aqui tem luz que nunca se apaga
Mas não clareia meu coração
Tem barulho por todo lado
Mas me falta o som do meu sertão
Sinto o cheiro da terra molhada
Quando a chuva beijava o chão
Hoje a lágrima cai no asfalto
E se mistura com a solidão
O rádio toca uma moda antiga
E eu não consigo me controlar
Cada verso é uma ferida
Que insiste em sangrar
Saudade não tem porteira
Nem cerca pra segurar
Ela aperta feito lembrança
Que não quer se calar
Eu posso morar num palácio
Mas continuo a mendigar
Um pedaço da minha infância
Que o tempo não quer me dar
E se Deus permitir
Antes da minha última viagem
Eu ainda volto praquele chão batido
Nem que seja só pra ouvir a viola
E deixar o vento dos cafezais
Cantar meu nome outra vez