Na estrada de chão batido
Onde o tempo fez morada
Tem uma porteira velha
Pela chuva castigada
Toda manhã um sabiá
Chega antes da alvorada
E acorda o campo inteiro
Com sua voz afinada
Muita gente já passou
Por aquele corredor
Boiadeiro, lavrador
E algum velho sonhador
Mas o sabiá ficou
Vendo o tempo mudar de cor
Guardando em seu canto manso
As lembranças do interior
Ô sabiá da porteira velha
Cantador do meu sertão
Seu canto mora no vento
E bate forte no coração
Quando escuto sua cantiga
Volta a minha recordação
Dos tempos simples da roça
Que hoje vivem na emoção
Ali passava meu pai
Com a tropa e o berrante
Minha mãe levava almoço
No fogão de ferro fumegante
E eu menino corria solto
Pelo pasto verdejante
Enquanto o sabiá cantava
No galho mais elegante
Hoje a cerca é diferente
Já não passa boiadeiro
O terreiro está mais quieto
E o mato tomou o carreiro
Mas o sabiá resiste
Feito um guardião verdadeiro
Cantando as velhas histórias
Desse Brasil roceiro
Ô sabiá da porteira velha
Cantador do meu sertão
Seu canto mora no vento
E bate forte no coração
Quando escuto sua cantiga
Volta a minha recordação
Dos tempos simples da roça
Que hoje vivem na emoção
Se um dia eu for embora
Pra bem longe deste chão
Quero ouvir seu canto livre
Na última recordação
Pois o sabiá da porteira
É mais que um simples canção
É a voz da minha infância
Viva dentro do coração