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Cante-me

Silvio Rodriguez

Cánteme

Cánteme
quien tenga el verso,
mas no con los cristales primorosos,
que el tiempo ya no es tema de reposo
si no crisol más áspero que terso.

Cánteme
quien tenga canto,
mas no para empañarme los sentidos,
y yo como que siento soy su amigo,
y yo como que voy también soy canto.

Cánteme
sí, para oírlo,
como aquella canción, la que yo hiciera.
Pero cánteme
para aplaudirlo por lo que supo hacer
ayer, hoy y después.

Cánteme
para salvarlo
entre las luces que me identifican.
Pero cánteme
para premiarlo
por el mejor ave del amanecer.

Cánteme
quien tenga saco
donde no exista sitio al miedo vano.
Cánteme
aunque no sea del todo sano
pero canción al fin y no matraco.

Cánteme
que aquí hay pulmones
repletos de conquistas al pasado.
Cánteme
sin pudor y sin cuidado.
Pues cánteme
si al fin tiene razones.

Cante-me

Cante-me
quem tiver o verso,
mas não com os cristais preciosos,
que o tempo já não é tema de descanso
se não é um crisol mais áspero que liso.

Cante-me
quem tiver canto,
mas não pra embaçar meus sentidos,
e eu como que sinto sou seu amigo,
e eu como que vou também sou canto.

Cante-me
sim, pra ouvir,
como aquela canção, a que eu fiz.
Mas cante-me
pra aplaudir pelo que soube fazer
aqui, agora e depois.

Cante-me
pra salvá-lo
entre as luzes que me identificam.
Mas cante-me
pra premiá-lo
como o melhor pássaro do amanhecer.

Cante-me
quem tiver saco
onde não exista espaço pro medo bobo.
Cante-me
mesmo que não seja totalmente sadio
mas canção no fim e não enrolação.

Cante-me
que aqui há pulmões
cheios de conquistas do passado.
Cante-me
sem pudor e sem cuidado.
Pois cante-me
se ao menos tem razões.

Composição: