Ouça, nem todo trovão vem pra assustar
Alguns vêm pra acordar a alma
Quando a mentira pesa no peito, o céu chama o Rei da Pedreira
Kaô Kabecilê
No silêncio antigo da montanha
Uma pedra ensinou oração
Disse: Quem não sustenta a verdade, não suporta o peso da própria mão
Vi o fogo beijando a madeira
Vi o céu se rasgar em clarão
E um velho tambor me dizia
Justiça, também é compaixão
Xangô pisa firme na Terra
Mas governa primeiro o interior
Pois de nada vale um império
Pra quem perdeu o próprio amor
E quando o trovão corta o medo
Não sobra máscara no chão
O raio ilumina por dentro
O que a boca escondia do coração
Kaô Kabecilê
Ecoa na pedra o poder do Rei
No fogo sagrado eu me encontrei
Na voz do trovão despertei
Kaô Kabecilê
Se a alma tombou, eu levantei
Xangô me ensinou: Quem honra a verdade
Nunca caminha só
Na pedreira o tempo não corre
Ele observa, feito ancião
Cada rachadura da rocha
É memória guardada no chão
Xangô não precisa de pressa
O universo conhece a direção
Porque o fruto que nasce torto
Não se endireita sem transformação
Há batalhas que são invisíveis
Há correntes no pensamento
E o maior machado de Xangô
Corta o orgulho por dentro
O Oxé tem duas lâminas
Uma rompe a injustiça do mundo
A outra, rompe a mentira escondida em nós
Porque o trovão de Xangô não destrói apenas árvores, destrói ilusões
Kaô Kabecilê
Que o céu responda ao meu cantar
Na força da pedra eu vou firmar
O que nasceu pra não quebrar
Kaô Kabecilê
Teu raio vem purificar
E todo peito que anda perdido
Aprende de novo a caminhar
Aprendi: Nem toda lágrima é tristeza
Às vezes é rio limpando a visão
E nem toda queda é derrota, às vezes é Xangô tirando o excesso do coração
Quem carrega verdade nos olhos
Não teme a voz da tempestade
Porque pior que o trovão do céu
É o silêncio de viver pela metade
Kaô Kabecilê, Kaô Kabecilê
Na pedreira mora o tempo
No trovão mora a verdade
No fogo mora o renascimento
E em Xangô, mora a coragem
Kaô Kabecilê, Xangô